Secretária-geral corrige depoimento

Ela é suspeita de favorecer Renan ao retardar divulgação da transcrição

Ana Paula Scinocca, Rosa Costa e Expedito Filho, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2025 | 00h00

Há cinco meses no cargo de secretária-geral da Mesa, a psicóloga Cláudia Lyra tem deixado suspeitas sobre sua atuação no processo contra o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL). Ontem, fone no ouvido, mãos trêmulas e olhar de quem acabara de ser surpreendida fora de sua sala de trabalho em pleno horário de expediente, ela gaguejou ao ser flagrada por jornalistas fazendo correções no depoimento de Renan.Cláudia identificou oradores e incluiu frases não captadas - segundo ela - pela equipe de taquigrafia do Senado. "Fui olhar as notas taquigráficas e vi que havia algumas partes faltando", alegou. "Vim colocar as frases na boca de quem falou." A revisão de textos é permitida no Senado e na Câmara - e é prática comum por parte dos parlamentares. Incomum é a própria secretária-geral fazer isso.A secretária-revisora exibiu força maior que a dos próprios relatores do processo. A senadora Marisa Serrano (PSDB-MS), por exemplo, passou o dia atrás da transcrição. "Decidi ficar em Brasília no fim de semana para trabalhar em cima disso, mas até agora não recebi nada", reclamou Marisa. Outro relator, Renato Casagrande (PSB-ES), disse estranhar a demora em liberar a transcrição. "Perdemos a sexta-feira. É um atraso inaceitável." Ele disse que vai denunciar se houver mudanças entre o que Renan falou e a transcrição.Além da suspeita de que possam ocorrer deturpações no depoimento de Renan, com a intenção de favorecê-lo, a atitude da secretária-geral conseguiu impedir que jornais, TVs e revistas semanais tivessem acesso à íntegra da versão de Renan.Um dos trechos do depoimento a que o Estado teve acesso - em um computador aberto próximo de Cláudia - mostra que o presidente do Senado teve dificuldade para responder às dúvidas dos relatores. Ele foi assessorado pelo aliado Gilvam Borges (PMDB-AP) para responder, por exemplo, sobre o espólio que seu pai teria deixado para a família. "Tem o espólio", diz Renan. "O espólio é o da Santa Rosa", completa o aliado. Santa Rosa é uma das fazendas de propriedade do presidente do Senado. Claúdia entrou para o Senado sem prestar concurso. Duas filhas dela e uma irmã ocupam cargos de confiança. Carla está na liderança do PMDB, Marina trabalha nas comissões e a irmã Marta é secretária de Renan.

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