Seca recorde em Brasília já atinge crianças

Raissa dos Reis Moreira, de 2 anos, está sofrendo com a seca mais aguda de todos os tempos em Brasília. Abatida por uma pneumonia, foi internada no Hospital Materno Infantil de Brasília. "Nunca imaginei que a seca pudesse provocar uma pneumonia tão forte", surpreendeu-se Maria Lirete dos Reis, ao ouvir do chefe da pediatria do hospital, Carlos Alberto Tayar, o diagnóstico de que a falta de umidade causara a doença da filha. Agosto costuma ser um mês seco na capital federal, mas desta vez a situação está pior. A cidade registrou anteontem, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o menor índice de umidade do ar de sua história: apenas 10%. Com esse porcentual, próximo do encontrado em áreas desérticas, a maior parte das árvores fica completamente desfolhada, os incêndios nos gramados tornam-se freqüentes e os moradores têm problemas de saúde. "A seca aumentou em 40% os atendimentos e as internações no hospital", informa Tayar. Ele explica que, neste período, há mudanças súbitas de temperatura, pois os dias são muito quentes, as noites frias e o ar rarefeito aumenta a circulação de partículas, vírus e bactérias na atmosfera. Isso facilita o surgimento de infecções respiratórias e intestinais. O pediatra alerta ainda que uma diarréia durante um período seco pode causar desidratação. Foi o caso de Stephanie Pereira, de apenas 2 meses, que já tinha sido internada na semana passada com pneumonia. "O médico me disse para dar a ela apenas leite materno e soro", conta Eliane Pereira. Tayar orientou a mãe a continuar em casa o tratamento para evitar que Stephanie fosse internada. Crianças e adultos, aconselha o médico, devem tomar muito líquido, evitar alimentação artificial e usar roupas leves. AulasDe acordo com Tayar, a Organização Mundial da Saúde recomenda a suspensão de atividades físicas e até das aulas quando os índices de umidade forem inferiores a 15%. Há pelo menos dois anos, o governo do Distrito Federal tem optado por manter as aulas, mesmo com a umidade baixa. A professora Cristine Azevedo, da Escola Classe, na região sul da cidade, observa que os alunos perdem concentração e o rendimento cai. "O nariz fica seco", reclama o estudante Felipe Lima, de 7 anos. "Eu coço a minha pele que fica branca de tão seca", acrescenta Raiana Guimarães, também de 8 anos. Na escola, a orientadora Maristela Fleming aconselha as crianças a trazer garrafas de água de casa e a usar bermudas. 20 copos de água por diaAs autoridades também são obrigadas a tomar suas providências. O presidente em exercício do Supremo Tribunal Federal (STF), Ilmar Galvão, toma 20 copos de água por dia e reduziu a duração de suas aulas de tênis de uma hora para 40 minutos. Natural do Rio Grande do Sul, Nélson Jobim, presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), prefere caprichar no chimarrão. "Para gaúcho, seca não é problema", diz. No Congresso, os funcionários são autorizados a usar aparelhos para umidificar os gabinetes. O procedimento é adotado, por exemplo, pelo ministro da Defesa, Geraldo Quintão, que não dispensa o umidificador no trabalho e em casa. Quem parece estar incólume à seca é o presidente Fernando Henrique Cardoso, cuja residência oficial, o Palácio da Alvorada, fica às margens do Lago Paranoá e tem uma piscina olímpica. Ele tem passado as manhãs por lá, indo ao Palácio do Planalto preferencialmente à tarde. Há um ano, o sistema de ar-condicionado do local passou a ter dispositivos que garantem um nível mínimo de umidade. CalorEm São Paulo, foi registrado ontem o dia mais quente do inverno, com mínima de 16,7 e máxima de 31 graus. No fim da tarde, choveu forte nas zonas Oeste e Sul da cidade. Segundo o Inmet, a média das mínimas em agosto é de 12,2 graus e, das máximas, 23,4 graus. O recorde absoluto de máxima no mês é de 33,1 graus, registrado em 1955.

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