'Se um pai não dava a filha, eles matavam', diz Sebastiana Medeiros

Sobrevivente diz que soldados do Exército eram truculentos e vingativos

Leonencio Nossa e Celso Júnior

11 de fevereiro de 2012 | 18h57

Pelas indicações obtidas durante três semanas de buscas, Sebastiana Medeiros, 102 anos, vive numa casa atrás de uma oficina mecânica, na periferia da cidade de Caçador, Santa Catarina. Matriarca de uma família numerosa e trisavó de quatro jovens, ela mora sozinha num porão alugado por R$ 80. É com uma reza que ela recebe a equipe de jornal. "Quem deu minha notícia?", pergunta, com as mãos juntas, em forma de oração.

 

Sebastiana convida para entrar no porão. "Estou muito contente", diz a senhora, com a hospitalidade típica das pessoas do oeste catarinense. "Quando a guerra começou, eu devia ter um ano e meio mais ou menos", relata. "Da guerra, lembro pouco. Lembro mais o que os meus troncos velhos (pais) contavam", completa. "Um compadre meu venceu a guerra comendo carne de cachorro sapecado em capim barba-de-bode, para não morrer de fome. Tirava os pés e o couro do cachorro e botava fogo no capim."

 

 

Ela tinha três anos quando a guerra começou e sete quando o conflito terminou. Com olhos bem abertos, diz que é a última sobrevivente da guerra. "Fui crescendo, fui ficando mocinha, altinha, de boa altura, de boa presença, e aí os mocinhos já foram gostando (risos)", relata. "As crianças guardaram a guerra na lembrança, como eu guardei. Da minha irmandade, da minha descendência, quem está existindo mesmo daquele tempo, só esta velha. O mais não existe."

 

A voz aguda de Sebastiana, a expressão facial e os gestos das mãos que acompanham o ritmo e a força de cada palavra lembram as marcas das personagens contadoras de histórias de Erico Veríssimo. Sebastiana compara a atuação dos soldados do Exército e da polícia com agentes da atualidade. "Os soldados que hoje existem não têm a metade da violência daqueles soldados do tempo da guerra dos jagunços", avalia. "Foi um tempo de revolta, violência, cavalaria, arma, munição", conta. "O senhor tinha uma vaca de leite e pedia para não matarem, aí é que matavam. Ninguém mandava no que tinha e na lida. Era o Exército quem mandava. Se o senhor por acaso tinha uma filha moça e o Exercito chegava... pelo amor de Deus. 'Eu quero sair um pouquinho com sua filha', dizia o soldado. "Se não dava a filha, eles matavam o senhor."

 

Espada no pescoço. Voz firme como toda boa contadora de histórias, Sebastiana fala de pistolas, revólveres e espadas e violência contra prisioneiros. "O Exército era de guerra mesmo, com batalhão de guerra. Tinha a espada de guarnição. Degolava, degolava. O que não queria se entregar, eles matavam degolado. Não dissesse que não se entregava, eles matavam", relata. "O caboclo que agredia era morto a tiro. O que não agredia era degolado, passavam a espada no pescoço", ressalta. "Não tinha pai por filho, filho por pai, mãe por filha, filha por mãe. Os parentes eram tudo obra estranha. Não podia acudir um parente, que morria. Meu Deus, do céu. Foi um tempo bravo, bravo, bravo."

 

Os relatórios militares descrevem milhares de casebres incendiados. Sebastiana também comenta sobre a destruição das casas. "Sobrou bem pouco da guerra dos brasileiros contra os caboclos. Os batalhões colocavam fogo nas casas, queimavam tudo o que tinha dentro", diz. "Se o caboclo tinha um porquinho no chiqueiro, não era dono. Eles tiravam o bichinho do chiqueiro e metiam a faca no pescoço, sem pedir", completa. "Morreu muita gente naquela guerra dos jagunços. O que tinha de povoado no mundo inteiro ficou muito pouco. Meu Deus do céu, meu Deus do céu, meu Deus do céu! Era espada na água."

 

Leia abaixo o depoimento de Sebastiana Medeiros:"Sou cerne de cambará"

"Batalhões de inocentes ficaram jovens sem pai, sem mãe, sem irmão mais velho. Se criaram no mundo sem ter ninguém. Depois da mortandade de gente, os bichos mexiam com aquela gente que ficava em cima da terra. Ficava aquele cheiro. Ficou arretado. Foram uns tempos bem bravos. Os mortos eram deixados no limpo. Os corvos davam fim. Os batalhões da guerra não escolhiam, fosse branco, brasileiro, alemão, caboclo, o que encontravam, eles derrubavam. Não deixavam em pé uma pessoa. Não tinham dó. Quem ficava na mira dos piquetões se acabava. Não gosto nem de falar. Os vaqueanos foram os primeiros a acabar. Eram dos brasileiros e daí o jagunços não gostavam de brasileiros. Sofreram. Teve uma tia minha, mulher de um tio meu, que estava para ganhar neném naqueles dias, gêmeos, eles mataram a mulher e jogaram as crianças na cerca. Adeodato. Não conheci, mas ouvi falar. Até ele matou duas irmãs da minha mãe Maria e Julia Caetano. Ele era padrinho delas. Matou por bandido que era. Já tinha matado as mães e os irmãos. Eu nasci em Rio das Pedras, que agora é município de Fraiburgo. Fui nascida na colônia do meu pai. De lá, me arretirei, porque meu pai vendeu a colônia dele. Saí de lá com 5 anos. E fui para Rio Bonito, para quem vai para Curitiba. A gente morava nas casas onde moravam os trabalhadores da estrada de ferro. Sempre tive fé. Naquele tempo da guerra, quando uma senhora ganhava um pequeno, São João Maria era o padrinho. Não se colocava outro acima dele. Sou afilhada dele. Na guerra, minha mãe viu jagunços chegarem, arrumou as mãos e pediu: 'São João Maria salve ao menos um da minha família para contar para os outros que estão lá no sítio'. Então, São João Maria salvou minha mãe e dois filhos dela. Depois da guerra, ela e meus irmãos morreram. Eu fui a única que restou da Irmandade. Sobrevivi. Nem tio, nem esposo, nem tia, nem prima sobreviveram. Mas olhe, eu, ainda no ano passado, capinei e plantei e colhi feijão em Calmon. O doutor que me consultou no hospital me olhou bem e disse: 'Vozinha, a senhora erga sua cabeça e me olhe'. 'Por que, doutor?' Ele me disse: 'A senhora não é mais gente para estar aqui no nosso mundo. É para estar lá no mundo de Irmã Paulina. Sua idade já venceu. A senhora conhece o cerne do cambará?' 'Já ouvi os mais velhos falarem. Ele deu uma baita risada. 'O cerne do cambará nunca acaba.' Quem busca a fé, quase sempre encontra. Quem guarda o segredo, busca a fé. Foi o que São João Maria enxergou. Os homens fazem guerra pelo estado da fé. Se o senhor tem uma dúvida e quer se vingar, o senhor faz guerra. Não tenho estudo de aula. Meu estudo é só o da minha fé. Eu trabalhava na enxada, na foice, no ferro. Cansei de ajudar meu esposo a derrubar tora. Sabe que eu sou vencida. O sangue caboclo dura 60 descendências de família, para ver o quanto é forte. E tenho o sangue caboclo que se misturou com o alemão. Eu assisti duas guerras. A do Aleodato e dos jagunços. Sou a única pessoa que existe daquela época, de raiz. Dessa época, a única descendência que sobreviveu foi a Sebastiana. A minha família é toda de raça cabocla. Eu sou sangue de caboclo e sangue de alemão. Meu bisavô, que era casado com a bisavó, mãe da minha mãe, era alemão. E foram pegados a cachorro no mato. Os batalhões iam para os sítios pegarem os bugres a cachorro no mato, pegaram minha bisavó e meu bisavô. Os dois se criaram com gente que podia criar eles. Minha bisavó era daquela bem cabocla, com beiço virado, que assoviava, nem falar falava. Ela foi achada no mato pelos fazendeiros... dentro do oco da madeira... os cachorros farejaram... e os homens encontraram os meninos. Um se criou com um fazendeiro, outro com outro. Depois, eles se casaram. O alemão se interessou por ela e se casou. A família dele virou tudo caboclinho. E uma peça sou eu, e aqui existo. Os soldados andavam com roupa cor tipo zinco, que antigamente existia. Os jagunços atiravam, mas não pegavam no corpo deles. Um irmão se escondeu dentro de um cesto de taquara. Nasci em oito de outubro, o ano não me lembro mais. Na minha época de mocinha, a gente ouvia música antiga, rancheira, xote. Era tempo de muita mata. Foram cortando... veio o planto de pinho, eucalipto. Negócio de lote já não se compra mais barato, e foi que começou a aumentar o preço da terra. De primeiro achava um terreno deserto. Não tinha terra vendida. Começaram a fazer a linha de trem de ferro, em cima daqueles dormentes. Quando cruzavam os trens, chacoalhavam aqueles dormentes. Tem gente que tem orgulho da minha vitória. O que guerreou numa guerra é revolucionário. Sempre fui uma pessoa cuidadosa. Nunca deixei chegar uma ponta de tesoura no meu cabelo. Nunca usei joia. Na obra, Deus disse para não usar negócio de joia, pulseira, relógio... dessas passadeiras bonitas no cabelo também não uso. Naquele tempo antigo, pintura também se proibiu. Hoje, estou mais leve que uma palha. Estou muito contente, é uma paz, um sossego. É a miudeza dessa fraqueza."

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