'Se o brasileiro ainda pudesse, talvez, preferisse votar no chimpanzé', diz cineasta

'Macaco Tião – O candidato do povo', dirigido por Alex Levy-Heller, retrata um tempo pré urna eletrônica em que o eleitor podia manifestar desgosto com a política escrevendo o que bem entendesse nas cédulas; documentário chega aos serviços on-demand e será exibido em março pelo Canal Brasil

Gilberto Amendola, O Estado de S.Paulo

16 Janeiro 2018 | 05h00

“Em 2018, se o brasileiro ainda pudesse, talvez, preferisse votar no chimpanzé”, diz o diretor do documentário Macaco Tião – O candidato do povo, Alex Levy-Heller. O filme, que foi lançado no final do ano passado, no mesmo dia de Star Wars: Os Últimos Jedi (14 de dezembro), e resistiu por três semanas em cartaz no Rio de Janeiro, chega aos serviços on-demand da TV por assinatura e será exibido em março pelo Canal Brasil.

Em um tempo pré urna eletrônica, o eleitor podia manifestar seu desgosto com a política nacional escrevendo o que bem entendesse nas cédulas – podia ser um palavrão em letras maiúsculas, um texto da Clarice Lispector ou o nome de um candidato inexistente, um cacareco.

Em 1988, milhares de eleitores cariocas escreveram “Macaco Tião” na cédula eleitoral, transformando o chimpanzé do zoológico do Rio de Janeiro no terceiro mais votado naquela eleição, ficando atrás apenas de Marcello Alencar (eleito prefeito pelo PDT) e Jorge Bittar (segundo colocado pelo PT). No total, foram 400 mil votos nulo na eleição daquele ano, entre eles as citações ao macaco "candidato".

A campanha de Tião foi criada pelos humoristas da Casseta Popular (revista de humor que daria origem ao grupo Casseta e Planeta). A candidatura não oficial do macaco (ele não era reconhecido pelo Tribunal Regional Eleitoral) era uma forma de incentivar o voto nulo. Na época, o então deputado Fernando Gabeira (ainda no Partido Verde) também apoiou a campanha.

Carisma. Tião era puro carisma. Com poucos anos de vida, o macaco era tratado como um bebê pelos funcionários do zoo. Ele chegava mesmo a andar livremente pelo local. A liberdade de Tião só acabou quando ele, já crescido, arrastou um dos tratadores pelas vielas do zoológico.

Mesmo enjaulado, Tião brilhava. O macaco aprendeu a fazer poses que imitavam o Cristo Redentor e galãs de TV. Mas, o principal talento de Tião era atirar sua próprias fezes no público e em políticos que visitavam o zoológico. Uma das vítimas preferenciais do Macaco era o também candidato Marcello Alencar – que apesar de muitas vezes atingido pelo animal não perdia o bom humor e soube transformar o infortúnio das fezes em votos.

Tião morreu de diabetes aos 33 anos em 1996. Mesmo ano em que as urnas eletrônicas foram implementadas oficialmente nas eleições brasileiras – matando qualquer possibilidade de qualquer herdeiro político do macaco Tião ocupar uma vaga no Legislativo, Executivo ou, quiçá, judiciário. “O Tião continua no subconsciente das pessoas. Foi uma figura tão forte e que sempre vota em tempos de crise política”, afirma Levy-Heller.

Cacarecos. O próprio termo “cacareco” nasceu de um animal-candidato. Lá longe, em 1959, o rinoceronte Cacareco foi emprestado por seis meses pelo Rio de Janeiro para a inauguração do Zoológico de São Paulo. Na época, a política paulista passava por uma crise moral e muitos eleitores enxergaram no “cacareco” a melhor forma de protestar. A candidatura do rinoceronte, que era fêmea apesar do nome, foi inventada pelo jornalista do Estado Itaboraí Martins. A história fala em 100 mil votos.

Já no final dos anos 1980 foi a vez de um mosquito alçar voos políticos- eleitorais. Em 1987, a cidade de Vila Velha, no Espírito Santo, vivia a crise do Aedes aegypti, mais conhecido como mosquito da dengue. Como as eleições ainda eram com cédulas, o candidato “mosquito” teve o seu nome rabiscado mais vezes do que o prefeito eleito. O mosquito teve cerca de 3 mil votos a mais do que Magno Pires da Silva, o prefeito eleito. Apesar do bom desempenho, o mosquito não foi convidado para assumir nenhuma secretaria.

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