‘Se não arrumar a casa, vai entrar em colapso’

Senador, um dos maiores produtores de soja do mundo, afirma que é a favor do impeachment da presidente Dilma

Entrevista com

Blairo Maggi

Marcelo de Moraes, Erich Decat, O Estado de S.Paulo

17 de março de 2016 | 07h20

BRASÍLIA - Peso pesado da economia e um dos maiores produtores de soja do mundo, o senador Blairo Maggi (PR-MT) já não esconde mais seu apoio pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff. Apesar de ter feito campanha pela sua reeleição e ter participado da base de apoio do governo no Congresso, Blairo participou dos protestos no domingo “Vamos viver um período muito ruim”, diz. “Acho que vamos chegar a um ponto que vai faltar dinheiro para o próprio governo. Vai faltar dinheiro para pagar a folha. Se não arrumar a casa vai entrar em colapso.”

Para Blairo, o vice-presidente Michel Temer (PMDB-SP) tem plenas condições de assumir o governo e comandar o processo de reformas no Brasil, num processo de conciliação nacional. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual é a sua posição sobre a proposta de impeachment da presidente Dilma?

Eu sou a favor. No mínimo, precisa iniciar a discussão. E se ali na frente, se finalizar, votar e não conseguir tirar a presidente, daí, terá de se trabalhar com o que está aí. A oposição terá de se organizar.

Impeachment é solução para a atual crise política e econômica?

Nós temos oportunidade para nos livrarmos de onde estamos hoje para resolver o problema econômico e, depois, resolver o político. Porque acho que se for resolver o político para depois o econômico, nós vamos chegar em 2018 esfacelados. E se os negócios começarem a andar, criando um ambiente para destravar o País, vai trazendo também a possibilidade de destravar a política. Então, penso que se houver o afastamento da presidente essas mudanças no comando criarão um ambiente favorável para os negócios novamente.

Esse processo passaria por uma conciliação nacional?

Sim. Um acordo forte entre as lideranças políticas e a sociedade civil organizada, propondo alterações. Temos de pensar em reformas estruturantes.

Qual seria a primeira reforma de um novo governo? A da Previdência?

Previdência no longo prazo. A trabalhista, que é muito difícil de fazer, é de curto prazo. Quando você mexe na regra, já no outro dia vale para o mercado. A trabalhista seria algo urgente. E não estamos falando em tirar direitos, mas de arrumar esses direitos.

O sr. tem uma relação boa com Lula. Como vê a situação dele com o ingresso no governo?

Acho um erro ele voltar. Ele vai virar um superministro e a presidente vai virar a rainha da Inglaterra. Como diz na Bíblia, não dá para servir dois senhores ao mesmo tempo.

Ele entrando no governo freia os avanços do impeachment?

Acho difícil. É uma confusão muito grande.

Acha que, no caso de impeachment e da formação de um governo de conciliação nacional, poderá haver espaço para a participação do PT?

O duro é a credibilidade disso. Vejo as notícias de que se o Lula vier, ele vai pegar R$ 100 bilhões da reserva. Isso é um sinal horrível para o mercado.

Michel Temer consegue conduzir esse novo processo?

Acho que sim. É obrigação de quem chega na Presidência sem ter passado pelas urnas. Ele não tem capital político para gastar gordura política. Tem de ir para um entendimento.

O sr. é um nome muito forte na economia. Tem conversado com os outros segmentos? O sentimento é esse?

Com quem eu converso é sim. Pode ser do pessoal da área do comércio, da indústria, da distribuição, dos supermercados, atacadistas, hotéis. Você conversa com qualquer um e pergunta como está o setor, vão dizer que está 40% menor.

O sr. tem conversado com Temer?

Conversei sim. Na posição dele o que demonstra é que está pronto. Se tiver que agarrar o chifre do boi ele vai agarrar.

Dilma foi reeleita há um ano e três meses. O que deu errado?

Logo depois das eleições, no início de 2015, frequentava as reuniões de lideranças com os outros partidos. Começamos a perceber que as coisas iriam ser diferentes daquilo que se falou na eleição. Houve barbeiragem no processo, e eles começaram a insistir muito de que ainda iríamos entrar numa crise, mas que seria de problemas externos. Não é verdade.

O sr. teme que essa crise perpetue pelos próximos anos?

Vamos viver um período muito ruim. Este ano já foi e se não tomarmos providências, 2017 também. Você vê o que está acontecendo nas empresas é de dar dó... eu acho que vamos chegar a um ponto que vai faltar dinheiro para o próprio governo. Vai faltar dinheiro para pagar a folha. Se não arrumar a casa vai entrar em colapso. Eu vejo um cenário muito ruim.

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