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José Roberto de Toledo
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Se há notícia é má notícia

A correlação é clara e constante: quanto pior aos olhos do público é o noticiário sobre o governo, maior é a desaprovação daquela administração, e vice-versa. Parece ser questão de bom senso, óbvia até, mas sua repercussão é profunda. Ainda não há elementos suficientes para cravar se, no caso, o ovo precede a galinha. Más notícias azedam o humor das pessoas, ou é seu humor azedo que deixa as pessoas sensíveis a manchetes negativas? A resposta à pergunta guarda o futuro de Michel Temer.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2016 | 03h00

O governo interino apostou todas as suas fichas em um resgate do otimismo econômico, o que é medido em grande parte por índices de confiança do consumidor, como o Inec do Ibope/CNI. O índice deu um salto logo após Temer tomar posse, mas caiu em seguida. Logo, é vital para o governo do PMDB retomar essa confiança. E de que depende tal retomada: do noticiário ou da economia em si? Para entender a relação de precedência entre ovo e galinha é preciso esclarecer o contexto em que a charada se assenta.

Na pesquisa Ibope/CNI sobre a avaliação do governo interino, a percepção do público sobre o noticiário a respeito do presidente melhorou sensivelmente em comparação à época de Dilma Rousseff. Mesmo assim, duas vezes mais pessoas consideram que as notícias foram mais desfavoráveis do que favoráveis ao governo Temer em junho: 40% a 18% (o resto achou que foram equilibradas, ou não respondeu). Três meses antes, sob Dilma, os 40% eram 76%.

O principal motivo da diferença de 36 pontos é que no governo do PT só 14% ficavam no muro sobre o noticiário. Hoje são 42%. Significa que muito mais gente não tem claro de para qual lado está pendendo o mercado de notícias – seja porque há mais equilíbrio noticioso, seja porque essa parte do público ainda não sabe o que pensar sobre a favorabilidade do noticiário.

Uma coisa, porém, não mudou em relação à época de Dilma. Entre os que acham que as notícias são mais favoráveis do que desfavoráveis ao governo Temer, 60% aprovam sua gestão. Entre os que acham o contrário, que as notícias lhes são majoritariamente desfavoráveis, 68% desaprovam sua gestão. De novo: quem é crítico ao governo só vê más notícias contra o presidente, ou é o noticiário negativo que cria opinião desfavorável ao governo?

Na teoria predileta de muitos políticos, as coisas caminham sempre no mesmo e inexorável sentido: um noticiário propositalmente negativo sabota o governo, derruba sua popularidade, rouba a confiança do consumidor e faz a economia desandar. Por esse mesmo raciocínio, um noticiário artificialmente positivo produziria o efeito oposto: mais confiança do consumidor e um ciclo virtuoso da economia.

É um jeito simples, fácil e errado de explicar o mundo. Especialmente um mundo complexo e cada vez mais conectado, no qual redes sociais virtuais são capazes de provocar primaveras populares, com milhões de pessoas protestando nas ruas, que rapidamente se transformam em invernos políticos intermináveis.

No caso de Temer, todavia, o Ibope descobriu uma pista. Sugere que a formação da opinião pública é sensivelmente diferente em relação ao governo Dilma. Na era petista, estudos estatísticos feitos pelo instituto mostraram repetidas vezes que as percepções da inflação e do desemprego pelo público explicavam juntas mais de 90% da desaprovação presidencial. Quanto maior o temor de que aumentassem, mais impopular ficava Dilma. Não mais. 

Nesses primeiros dois meses de Temer, a desfavorabilidade do noticiário teve um peso maior na explicação de por que 53% desaprovam seu governo do que a percepção popular de que inflação e desemprego crescem. O noticiário negativo não explica tudo, mas explica mais do que os indicadores macroeconômicos. Daí o comovente esforço do interino para criar uma agenda positiva para sua gestão. Seria manchete, não fossem os fatos.

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