‘Se ela apoia os direitos humanos, vai me receber’, diz iraniana

Advogada ganhadora do Nobel da Paz Shirin Ebadi chega ao Brasil na terça-feira e diz não ter perdido as esperanças de ser recebida por Dilma

Roberto Simon / SÃO PAULO, O Estado de S.Paulo

04 de junho de 2011 | 20h02

A poucos dias de aterrissar no Brasil, Shirin Ebadi diz não ter perdido ainda as esperanças de ser recebida pela presidente Dilma Rousseff – por quem guarda "grande admiração e respeito". A advogada iraniana, ganhadora do Nobel da Paz de 2003, comemora o fato de o Brasil ter levado pela primeira uma mulher ao poder e pressiona: "Se Dilma defende os direitos humanos e as mulheres, sei que ela vai me receber".

 

Shirin concedeu a entrevista ao Estado em farsi, através do Skype, de Londres. Em 2005, com a chegada de Mahmoud Ahmadinejad à presidência, ela viu-se obrigada a partir para o exílio. Entre as perguntas do repórter, a advogada iraniana disse ao tradutor várias vezes que teme por sua vida.

 

O governo brasileiro afirmou que a presidente não vai recebê-la pessoalmente. Que resposta a senhora dá à essa recusa?

Desejo e espero me encontrar pessoalmente com a presidente Dilma. Ainda tenho esperança de que isso ocorra. Guardo uma grande admiração e respeito por ela. Considero muito significativo o fato de Dilma ter sido a primeira mulher eleita presidente do Brasil. E é por isso que gostaria de me encontrar com ela. Quero, sobretudo, parabenizá-la por sua conquista.

 

E se a presidente não mudar de ideia e continuar a evitar um encontro com a senhora, isso significará uma derrota?

De jeito nenhum, não há derrota. Para mim, o aspecto mais importante da minha viagem ao Brasil é o encontro com grupos e pessoas organizadas que trabalham pelo bem-estar da população. Se Dilma defende os direitos humanos e os direitos das mulheres, sei que ela também vai me receber.

 

A senhora parece indicar que não se contentará com um encontro com outras autoridades, como o assessor para Assuntos Internacionais, Marco Aurélio Garcia, ou o Ministro das Relações Exteriores, Antônio Patriota.

Como disse, tenho respeito e admiração pela figura da presidente Dilma e quero falar com ela sobre vários temas, incluindo os direitos das mulheres. Mantenho minha esperança de que esse encontro possa ocorrera, apesar de tudo.

 

Em março a senhora elogiou a mudança que Dilma promoveu em relação à promoção dos direitos humanos no mundo. Qual é o significado da recusa da presidente em recebê-la para esses novos rumos que a diplomacia brasileira parecia estar tomando?

Essa é uma resposta que os próprios brasileiros devem dar. Não sou eu, iraniana, que vou respondê-la. Como vocês leem essa recusa de Dilma? Por que não dar continuidade à nova posição diplomática em relação aos direitos humanos?

 

O governo iraniano acusa a senhora de trabalhar com EUA e ‘potências ocidentais’ para afastar o Brasil do Irã.

Eu vou a São Paulo, Brasília, Porto Alegre e Rio para aumentar a amizade e aproximar os povos do Brasil e do Irã. É essa a razão principal de minha visita. Não tenho vínculo nenhum com os EUA. Peço aos brasileiros que leiam com atenção o discurso que pronunciei quando recebi o Prêmio Nobel da Paz, em 2003. Nele faço uma dura crítica aos EUA e aos países europeus – você pode achar a íntegra do texto em inglês no site do Prêmio Nobel. Essas informações divulgadas pelo governo iraniano são totalmente falsas, forjadas.

 

O que os brasileiros podem fazer para ajudar na defesa dos direitos de iranianos perseguidos pelo governo?

Pedimos somente uma coisa muito importante: escute o que o povo iraniano está dizendo e não as declarações oficiais do governo. É preciso entender realmente que tipo de tratamento os iranianos recebem de seu próprio governo e como estão descontentes com a atual situação em seu país.

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