Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Se convenção fosse hoje, PMDB provavelmente não faria aliança com PT, diz Cunha

Em entrevista, presidente da Câmara afirma que seu partido não aceita 'presidencialismo de cooptação', mas ataca ideia de impeachment de Dilma Rousseff: 'Brasil não virou uma republiqueta'

ANA FERNANDES, O Estado de S. Paulo

17 de março de 2015 | 02h13


São Paulo - O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), disse que, se fosse hoje a convenção do PMDB para manter o apoio à reeleição da presidente Dilma Rousseff (PT), ela provavelmente desfaria a parceria originada no segundo mandato do ex-presidente Lula. Convidado do programa Roda Viva, da TV Cultura, na noite dessa segunda-feira, 16, ele foi questionado se hoje o partido votaria pela manutenção da aliança. "Acho que não, não pela presidenta, mas pelo PMDB; a política tem circunstâncias", respondeu. Segundo Cunha, é evidente que houve um enfrentamento entre os dois partidos e que isso deixou sequelas. Na entrevista, o presidente da Câmara reafirmou seu posicionamento contrário ao impeachment de Dilma.

Para Cunha, seu partido, antes maior aliado do PT e hoje em atrito com o governo, não aceita o "presidencialismo de cooptação", que ele alega ter sido imposto pelo governo Dilma. O presidente da Câmara disse que o PMDB não quer "carguinhos", mas quer ser partícipe do governo."Governar não é só dando cargo, é compartilhando soluções a serem adotadas", afirmou. Cunha afirmou que todos sabem da necessidade do ajuste fiscal, bastando ter algum entendimento da economia, mas reclamou que, nos últimos anos, a presidente não chamou o PMDB à mesa de decisões e que, agora, tenta impor o ônus dos erros de seu governo ao PMDB, quando transfere ao Congresso a responsabilidade de aprovar as medidas.

Cunha disse considerar um absurdo a quantidade de ministérios - 39 - e afirmou já ter sugerido a redução para 20. Ainda com relação a cargos, declarou que será um erro da Presidência se achar que vai reconquistar o PMDB simplesmente dando posições em ministérios ou no segundo escalão. "Não é pelo fato de ter mais cargos que vai fazer estar mais ou menos presente governo. O PMDB quer ter opinião, voz e influenciar. Queremos ser partícipes, não queremos mais cargos."

O peemedebista também reclamou da articulação do Planalto de apoiar a movimentação de Gilberto Kassab (PSD), de criar o PL no intuito de atrair parlamentares de outros partidos (inclusive do PMDB) e depois fundir o PL ao PSD, inflando sua representação no Congresso. "Não dá pra defender reforma política e estimular a coleta de assinaturas comprada, arranjada por agentes políticos com subterfúgios. O objetivo ali não é criar partido, com ideologia, mas a busca pelo poder, na cooptação de parlamentares para enfraquecer aliados."

Para Cunha, o governo petista partiu para essa estratégia porque perdeu força política, passou de uma "hegemonia eleitoral" dos três primeiros mandatos petistas para uma "vitória eleitoral" apertada. O peemedebista acredita que se somaram fatores negativos para o governo de Dilma, da comunicação falha do ajuste fiscal à população às denúncias de corrupção na Petrobras. "É uma combustão", afirmou, e depois repetiu a crítica de que os ministros José Eduardo Cardozo (Justiça) e Miguel Rossetto (Secretaria-Geral da Presidência) demonstraram incompreensão das manifestações de rua deste domingo, 15.

Ainda assim, Cunha admitiu ter visto hoje um governo mais humilde na postura da presidente - Dilma admitiu na tarde desta segunda-feira que pode ter errado na dosagem da política econômica anticíclica do primeiro mandato.

"Republiqueta". O deputado voltou a se manifestar contrariamente aos pedidos de impeachment de Dilma. "Não posso achar que o Brasil virou uma 'republiqueta' e que podemos tirar o presidente democraticamente eleito. O Brasil não pode fazer como o Paraguai, que tirou o Lugo do dia pra noite porque ele perdeu apoio, vai ser um impeachment atrás do outro se isso acontecer."

O presidente da Câmara disse ainda ser a favor do parlamentarismo como sistema de governo, mas que falar nisso agora soaria golpista, então que preferiria plantar uma semente deste debate para o futuro.

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