Leonardo Benassatto/REUTERS
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Se condenado, Lula terá mais poder de transferência de voto, diz analista político

Na opinião do professor Aldo Fornazieri, haverá maior mobilização dos eleitores a favor do nome que seria apoiado pelo ex-presidente na campanha

Entrevista com

Aldo Fornazieri, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp)

André Ítalo Rocha, O Estado de S.Paulo

23 Janeiro 2018 | 17h18

Caso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja condenado mais uma vez pela Justiça e seja impedido de se candidatar a presidente neste ano, ele será um cabo eleitoral ainda mais influente do que já foi no passado, disse ao Broadcast Político o analista político Aldo Fornazieri, professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (Fesp) e autor do livro As crises da esquerda (2017, Civilização Brasileira). Na opinião do professor, a falta de provas claras contra o petista vai se traduzir em maior mobilização dos eleitores a favor do nome que seria apoiado pelo ex-presidente na campanha. Confira os principais trechos da entrevista:

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 O senhor concorda com a afirmação de que Lula terá uma influência forte na eleição, independentemente do resultado do julgamento? 

Concordo. Em primeiro lugar porque o PT tem dito que vai até o fim com a candidatura do Lula. Caso essa afirmação do PT não se concretize, penso que Lula será um cabo eleitoral muito forte. Se ele for condenado, a ideia do sentimento de injustiça vai se aprofundar em boa parte da população, até porque tem gente de direita, como Reinaldo Azevedo, que tem dito que não há provas contra Lula. Então, a ideia da reparação da injustiça vai ficar mais forte na população e, nesse sentido, o poder de influência dele de transferência de voto vai ser maior do que em outras eleições.

Esse sentimento de injustiça estaria também ligado a um desgaste da Operação Lava Jato? 

Eu acho que tem desgaste com duas coisas. De fato a sentença do juiz Sergio Moro foi muito debatida na opinião pública. Em segundo lugar há um desgaste do Moro, e as pesquisas do Ipsos publicadas pelo Estadão mostram isso. Enquanto o Lula vem numa curva ascendente de popularidade e diminuição de rejeição, o Moro vem numa curva descendente de popularidade e aumento da rejeição a ele. Além disso, existe um efeito comparativo. Em relação ao Lula, existe a dúvida da propriedade do triplex, não há contas no exterior, não há caixas fortes de joias, não tem bunkers cheios de dinheiro nem malas de dinheiro andando por aí. O cidadão vai se perguntar: por que, então, ele está sendo condenado e outros não sendo condenados? O cidadão comum não lida com prazos da Justiça, não sabe detalhes. Ele só vê que um cara sem uma prova evidente está sendo condenado e outros com provas evidentes estão ocupando o poder. E outro elemento importante é o efeito saciedade. O Lula foi acusado de tantas coisas que as pessoas nem sabem mais do que ele está acusado. Qualquer denúncia não pega mais, porque ele já teve o desgaste que ele deveria ter tido. Agora está numa curva de reversão.

Se Lula ficar fora da disputa, tende a apoiar um nome do PT ou alguém de fora como Ciro Gomes? 

Ele tenderá a apoiar um candidato do PT caso não consiga ir até o fim. O Ciro Gomes adotou uma estratégia equivocada em torno dessa questão do Lula. Foi muito ambíguo, muito crítico e no fim deu uma declaração dizendo que torce pela absolvição do Lula. Ele não soube se postar. O PSOL foi mais inteligente, se inserindo no movimento de defesa de Lula, percebendo que ali se move um campo político e eleitoral, para angariar a simpatia de eventuais eleitores. Com a estratégia errada de Ciro, o PT me parece não estar inclinado a apoiá-lo. O melhor substituto seria o Fernando Haddad.

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Ciro Gomes é um candidato competitivo? 

O Ciro Gomes é um candidato que tem que ser levado em conta, até porque as pesquisas mostram que, sem o Lula na disputa, ele leva uma parcela do eleitorado do petista. Agora, o problema é que ele é muito errático, ninguém sabe o que ele vai fazer na campanha. Ele é incontrolável, termina falando o que bem entende, é um candidato que não tem o domínio de si mesmo, se deixa dominar pelas emoções, e isso é prejudicial numa campanha eleitoral, principalmente para o cargo máximo do País.

 E o Fernando Haddad teria condições de chegar ao segundo turno, mesmo com o insucesso de sua campanha para ser reeleito prefeito de São Paulo? 

Sim. E penso que uma forte presença do Lula na campanha vai ajudar. Em 2016, era uma outra circunstância, porque era o momento de máximo desgaste do PT. E esse desgaste está numa curva de reversão. Tanto é que as pesquisas mostram que a popularidade do PT vem crescendo, não atinge mais os patamares de 30% que já atingiu, mas já voltou a 18%. Em 2016 era um momento de defensiva completa, quando as forças de esquerda foram derrotadas. O momento de hoje é outro, quando as esquerdas estão passando para uma ofensiva política, e isso tem peso na eleição. As teses progressistas de esquerda passaram a ter maior receptividade na sociedade, e é forte na opinião pública a ideia de que no rastro do governo Temer veio uma destruição de muita coisa que tinha sido conquistada. A rejeição ao governo Temer acaba favorecendo a esquerda, além do colapso do PSDB. O PSDB apostou errado no impeachment. 

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