Saudade dos dias no Crusp

Grupo que viveu agitação dos anos 60 no abrigo estudantil se reencontra

, O Estadao de S.Paulo

29 de novembro de 2008 | 00h00

Hoje, pelo menos 300 homens e mulheres, boa parte de cabelos brancos, relembrarão tempos difíceis e fascinantes ao mesmo tempo. São histórias de luta, militância política e estudantil, descobertas em todas as áreas e, até, de estudo. São os cruspianos dos anos 60, remanescentes do período mais rico em termos políticos e culturais do conjunto habitacional da Universidade de São Paulo (USP), o Crusp, em plena ditadura militar.Eles se encontrarão entre 12 e 22 horas no Colégio Notre Dame (Rua Alegrete, 168, Sumaré) para lembrar fatos marcantes como o fechamento do Crusp, dias após a edição do Ato Institucional nº 5, a invasão do conjunto pela Polícia Militar com as conseqüentes prisões no Departamento de Ordem Política e Social (Dops) e no odiado Presídio Tiradentes.FESTASTambém haverá espaço para lembranças das festas, shows, peças de teatro e os namoros que surgiram da convivência intensa entre gente de todos os cursos da universidade no conjunto de prédios. O Crusp foi pensado para abrigar os estudantes, mas serviu inicialmente para alojar os atletas que participaram do Panamericano de 1963, realizado em São Paulo. Depois, foi conquistado pelo movimento estudantil para os alunos pobres do interior e de outros Estados que vinham estudar na USP.Entre os que comparecerão para se reencontrar e contar histórias, estarão desde a diretora da Faculdade de Educação da USP e ex-pró-reitora Sonia Penin e o empresário Hugo Marques Rosa (ex-secretário estadual de Recursos Hídricos na gestão Mário Covas) até o assessor parlamentar Walter da Silva e o pequeno empresário Rafael de Falco.DIFERENÇASSonia, então estudante de filosofia, passou praticamente toda a vida dentro da USP. Até mesmo o marido, o engenheiro Silvério Penin Santos, ela conheceu na militância estudantil e política no Crusp, como ela integrante da Ação Popular (AP). Marques Rosa, engenheiro da Escola Politécnica, por sua vez, tornou-se depois dono de uma grande construtora, em sociedade com outro ex-cruspiano. Atualmente militante ambientalista da Associação Eco-Juréia e assessor da bancada do PT na Assembléia, Walter, um dos organizadores do encontro e aluno de história na época, atribui à sua militância ao lado dos colegas cruspianos a conquista do Centro de Práticas Esportivas da USP (CPUSP) e a Volta da Universidade, tradicional prova esportiva. Falco, engenheiro como Marques Rosa, por sua vez, tornou-se pequeno empresário do ramo de marketing.Em comum, todos têm o mesmo sentimento: a vida no Crusp foi, em todos os sentidos, uma verdadeira aula de cidadania. Na verdade, eles se lembram mais do Crusp do que de seus respectivos cursos, o que equivale a dizer que a vida no conjunto habitacional da universidade, na época um exemplo de autogestão e liberdade, foi mais importante que a própria carreira profissional, ao menos durante a formação.

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