Sartori 'escorrega' no piso, mas segue no teto

Piada de candidato gaúcho provoca reação de professores, mas não abala seu favoritismo

LISANDRA PARAGUASSU , ENVIADA ESPECIAL , ELDER OGLIARI / PORTO ALEGRE , O Estado de S.Paulo

22 de outubro de 2014 | 02h06

Uma piada feita pelo candidato do PMDB ao governo gaúcho, José Ivo Sartori, com o piso salarial dos professores, virou uma dor de cabeça para sua campanha e uma arma na mão da candidatura rival, a do governador Tarso Genro (PT).

Na segunda-feira, em uma entrevista ao portal Terra, Sartori ironiza reivindicação do magistério gaúcho, que até hoje não recebe o salário básico nacional de R$ 1.697, e sugere aos docentes buscá-lo em uma tradicional loja de materiais de construção do Estado. Espalhada pelas redes sociais, a piada se transformou em uma crise com os professores e obrigou a campanha do peemedebista a pedir desculpas.

A fala, porém, ainda não atingiu seu favoritismo neste 2.º turno. De acordo com a pesquisa Ibope divulgada ontem Sartori tem 59% dos votos válidos, contra 41% de Tarso.

Na entrevista, Sartori respondia sobre acusações de que não tem propostas e disse que as têm, mas não faz promessas já que não sabe se poderá cumpri-las, e lembra sua conversa com o sindicato dos professores (CPERS). "Eu fui lá no CPERS e não assinei o documento exigindo um compromisso de pagar ou resgatar o salário, vamos dizer...como é que diz mesmo? O piso! O piso eu vou lá no Tumelero e eles dão um piso melhor, né? (risos). Ali tem piso bom, né?", diz o trecho. Em seguida o ex-prefeito completa, dizendo que Tarso não cumpriu a promessa de pagar os professores e no final deste ano o Estado terá um passivo de R$ 10 bilhões nessa área.

Em uma nota, o sindicato manifestou repúdio à brincadeira, declarou estranhar a maneira com que o candidato tratou o assunto. "Acreditamos que esse tema não deve ser objeto de chacota ou brincadeiras por conta de quem tem responsabilidade de propor alternativas para qualificar a educação", diz o texto.

Contexto. A campanha de Sartori alega que a piada foi tirada de contexto e acusa do PT de baixaria. "Foi uma manipulação, que é a especialidade deles. Distorceram as palavras", afirma Sebastião Mello, vice-prefeito de Porto Alegre e coordenador da campanha de Sartori. "Foi uma brincadeira tirada de contexto e Sartori já pediu desculpas. Ele é professor, a mulher dele é professora e ele sabe que o Estado não tem prosperidade sem educação."

O governo afirma que nenhum professor ganha menos do que o piso nacional de R$ 1.697 por 40 horas semanais e R$ 848,50 por 20 horas semanais. Como a tabela de vencimentos básicos estabelece mínimos, respectivamente, de R$ 1.040 e de R$ 520, a diferença é paga na forma de completivos, mas sobre esses não incidem vantagens como cálculo de gratificação e triênios. Dos 160 mil professores, 34 mil recebem completivo, segundo a Secretaria Estadual de Educação. O CPERS tem se mobilizado para exigir que os valores do piso passem a ser considerados como o básico, para que o cálculo das vantagens seja aplicado ao total.

Com disponibilidades financeiras limitadas - hoje, 112% da renda líquida anual do Estado está comprometida -, o governo sustenta que concedeu o maior reajuste da história à categoria, de 76% durante a atual gestão, com um acréscimo de R$ 3 bilhões anuais à folha. Alega, ainda, que está cumprindo o piso sem mexer no plano de carreira da categoria, que estabelece diferenças salariais de 100% entre o nível 1 e o nível 6, mantendo o estímulo para o professor se qualificar.

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