Imagem José Roberto de Toledo
Colunista
José Roberto de Toledo
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Sarneyzação à vista

Até agora foi fácil. A única votação importante a que o governo se submeteu no Congresso foi para aumentar despesas, não para cortá-las. Pegou a herança maldita da gestão anterior e acrescentou um dígito. Não havia nenhum interesse específico a ser contrariado, só a oposição pela oposição de PT e companhia. Teste mesmo será quando tiver que aprovar redução de gastos, perdas de direitos adquiridos e, se ousar, aumento de imposto. Mesmo assim, Michel Temer bateu na mesa e se disse atacado.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2016 | 05h00

A má notícia para o presidente interino é que a pressão só tende a aumentar. O teto de despesas do governo federal proposto pelo ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, embute uma redução brutal do gasto público. É um dos dois motivos pelos quais se costurou o pacto em torno do vice de Dilma Rousseff: para ele e Meirelles fazerem o trabalho que o PT não fez e o PSDB não quer fazer. O outro ouve-se nos grampos: cortar a água da Lava Jato.

Por enquanto, o plano de Meirelles é apenas uma carta de intenção. Quando for transformado em medidas práticas se conhecerão os detalhes onde mora o diabo. Só então serão batizados os patos que pagarão o pacto. Haverá reações, e não só da turma da mortadela. Se continuar batendo na mesa, Temer vai machucar a mão. Ademais, o papel de vítima já foi ocupado por Dilma, em entrevistas diárias em múltiplos idiomas.

O que fará o presidente interino, então, quando a chapa esquentar de verdade? Pelo que se viu até agora, improvisar. 

A reação ao ministério 100% testosterona foi forte? Apressa-se em reunir a bancada feminina e prometer um “ministério para as mulheres” em um futuro sem data. Os artistas estão reclamando do fim do Ministério da Cultura? Recria-se o ministério. Uma menina é estuprada por 33 bandidos? Propõe-se a criação de uma delegacia especial da mulher na Polícia Federal. Só puxadinhos.

Nada nessas ações indica um plano. A tal ponte para o futuro foi arquitetada como um fim em si mesmo: levar o PMDB ao poder sem intermediários. O que fazer quando chegar lá, além de terceirizar a área econômica? Na hora a gente vê. Tome-se o caso do ministro da Educação. Até ser convidado para o cargo, parece jamais ter pensado profundamente sobre os temas que estão em sua mesa. Ou não teria priorizado os conselhos de um ator pornô.

O problema do improviso é que a administração fica vulnerável a todo tipo de lobby. Especialmente quando a gestão que sai não deixa nenhum memorial, roteiro ou assessores que saibam o que está acontecendo. Nessas horas os espertos aparecem. Como não há vácuo no poder, sempre tem alguém que percebe a oportunidade de ocupá-lo, nem que seja com sugestões desinteressadas, consultorias sem ônus ou para “colocar algumas ideias”.

Toda sugestão representa um interesse, toda consultoria tem custo e toda ideia foi “colocada” ali por um motivo, tal qual o jabuti – na falta de melhor palavra – trepado na árvore. 

Temer foi eleito, mas vice não tem programa próprio. Os votos que recebeu por tabela foram dados para a execução de uma plataforma à qual Dilma renunciou depois de reeleita. Aquele programa morreu politicamente, e – com ele – quem o endossou e, depois, renegou. O novo programa não foi avalizado pelas urnas. Pode ter a simpatia do mercado e a boa vontade do Congresso, mas sua legitimidade sempre será contestada pelos patos do pacto.

A depender de quantos começarem a grasnar, o humor dos congressistas vai mudar. E se mudar, nem mesmo as duas dezenas de partidos da base governista vão bastar. O fisiologismo é padrasto do presidencialismo de coalizão. Em mais de uma vez, renegou o enteado quando este perdeu popularidade e, por fim, governabilidade. Deu em dois filicídios e num parlamentarismo branco. Temer está mais para Sarney do que para Collor ou Dilma.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.