Sarney tira Garibaldi da disputa no Senado e desperta ira dos petistas

Ideli adverte que ?não há possibilidade? de o PMDB, com um quinto dos parlamentares, presidir as duas Casas

Christiane Samarco e Vera Rosa, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

21 de janeiro de 2009 | 00h00

A candidatura do senador José Sarney (PMDB-AP) à presidência do Senado produziu ontem uma primeira vítima e uma crise de relacionamento com o PT com potencial de contagiar o até agora previsível processo sucessório na Câmara dos Deputados. Desautorizado pelo comando do partido, que insuflou a candidatura de Sarney, o atual presidente do Senado, Garibaldi Alves (RN), desistiu de disputar a reeleição. "Não poderia ser egoísta e expor meu partido ao risco de uma candidatura sobre a qual pairam dúvidas, quando se tem um candidato talvez até mais forte do que eu", disse ontem Garibaldi.Com Sarney no páreo, o PT reagiu. Além de fincar pé na disputa, bancando a candidatura do senador Tião Viana (AC), o partido anunciou que fará tudo para impedir que o PMDB presida Câmara e Senado, ameaçando o favoritismo do deputado Michel Temer (PMDB-SP). "Não há possibilidade de o PMDB, que tem apenas um quinto dos parlamentares, presidir as duas Casas", protesta a líder do PT no Senado, Ideli Salvatti (SC), que desembarca hoje em Brasília. "Já tem deputados me ligando, inclusive petistas, para perguntar como é que fica, porque não aceitam que o PMDB comande sozinho o Congresso", diz a líder, convencida de que "a surpresa fora de hora de Sarney" não só constrange o PT, como pode abalar a relação entre os dois partidos. E mais: "O governo é quem vai pagar a conta de qualquer jeito."Embora o presidente Luiz Inácio Lula da Silva não admita publicamente, o governo teme o "troco" dos aliados insatisfeitos na Câmara, caso Sarney seja escolhido para dirigir o Senado, na eleição marcada para 2 de fevereiro. Em conversas reservadas, Lula avalia que os descontentes com o excessivo poder do PMDB podem trair Temer, que disputa o comando da Casa com o apoio do Planalto.Convencido de que haverá efeitos colaterais a médio prazo, o presidente decidiu não se envolver diretamente na briga. Encarregou, porém, os articuladores do governo de tentar apagar o incêndio político."O PMDB, no comando das duas Casas, cria um desequilíbrio partidário nacional e pode representar um risco tanto para a candidatura da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, como para a do governador José Serra (PSDB) à sucessão do presidente Lula, em 2010", afirmou Viana. "Se Lula estiver bem, grande parte do PMDB migrará para Dilma, mas, se estiver mal, boa parte irá para o Serra. Essa antecipação da eleição de 2010 não é boa para o Congresso." O presidente da Câmara, Arlindo Chinaglia (PT-SP), chegou a advertir ontem para o risco de a candidatura do PMDB no Senado prejudicar Temer na Câmara, mas hoje garante a unidade dos petistas para eleger o deputado do PMDB. Ameaças à parte, Temer afirma que não tem "a menor preocupação" com o efeito Sarney sobre a sucessão na Câmara. "A repercussão na Câmara é zero."?BOM SENSO?"Estamos fazendo um chamamento ao bom senso para encontrar o caminho do equilíbrio entre os partidos", afirmou o presidente do PT, deputado Ricardo Berzoini (SP). "De qualquer forma, da parte do PT o apoio a Temer está asssegurado. Acordo se cumpre." Para os petistas que sustentam a candidatura de Viana, o governo não terá mesmo como escapar das consequências políticas da disputa. Ou o Planalto terá de arcar com as mágoas da campanha e das insatisfações dos peemedebistas, em caso de derrota, ou pagará o preço alto das exigências de um PMDB que, tendo em suas mãos a decisão sobre todo andamento do Congresso, fará do governo um refém.Mas não foi esse o tom da conversa de Sarney com o presidente Lula na noite de segunda-feira. Nos relatos que fez a companheiros de partido, Sarney disse que a palavra do presidente foi "a esperada", de que não interferiria no processo. Lula fez questão de deixar claro que tem em Sarney um aliado leal e, por isso, jamais se posicionaria contra ele.

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