Sarney tenta esquecer crise, mas é cobrado por Suplicy

Senador do PT acusou presidente do Senado de ter cometido erros e adotado ?procedimentos inadequados?

Eugênia Lopes, O Estadao de S.Paulo

25 de agosto de 2009 | 00h00

Passada uma semana de sua absolvição no Conselho de Ética, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), tentou retomar ontem a rotina com um discurso sobre o centenário da morte do escritor Euclides da Cunha e do 55º ano da morte do presidente Getúlio Vargas. O script com ares de normalidade traçado por ele foi, no entanto, alterado pelo senador Eduardo Suplicy (PT-SP). Em aparte, o petista cobrou Sarney e o acusou de ter cometido erros e adotado "procedimentos que não foram adequados"."As coisas não podem ficar como estavam. E essa é a voz que ouço por toda a parte, nas centenas de e-mails que tenho recebido", disse Suplicy. O discurso para constranger Sarney foi combinado com o líder da bancada do PT, Aloizio Mercadante (SP), que na semana passada ameaçou renunciar ao cargo, depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a cúpula do partido orientaram os três senadores petistas no Conselho de Ética a votarem pela absolvição de Sarney. Mercadante era contra a absolvição de Sarney e queria que pelo menos uma das 11 ações contra o presidente do Senado seguisse adiante e ele fosse investigado. A fala original de Suplicy era bem mais dura. Citava nomes, cobrava explicações sobre a contratação de pelos menos três parentes de Sarney e da empresa de seu neto para intermediar crédito consignado para servidores do Senado. Também abordava textualmente a atuação do presidente do Senado para captar recursos para a fundação que leva seu nome. No entanto, momentos antes de fazer o discurso que tinha escrito, Suplicy recebeu um telefonema que, segundo ele próprio, teria sido de Mercadante. Mais tarde, o gabinete do líder do PT informou que foi Suplicy quem ligou para Mercadante.O fato é que, depois do telefonema, Suplicy desistiu de ler o discurso. Falou de improviso, sem citar os dados e as eventuais contradições de Sarney ao longo da crise. Mas foi firme ao dizer que tinha muitas dúvidas em relação às denúncias contra o presidente do Senado. Em sua opinião, vários fatos permanecem sem explicação. Avisou ainda que a bancada do PT vai se reunir hoje, quando será definida a posição sobre o caso Sarney."Vim hoje a Brasília para fazer um pronunciamento que acabo aqui fazendo, neste aparte. Inclusive, transmiti ao senador Aloizio Mercadante, e ele ponderou que será melhor refletirmos amanhã (hoje), na reunião da bancada, que eu acho que a solução não está bem resolvida", disse Suplicy. "O arquivamento das representações não significou que nós tenhamos resolvido os problemas do Senado, para já começarmos as votações. Estamos, desde o início de agosto, sem votar uma matéria importante sequer. Então, quero aqui lhe dizer que eu acho que nós não tivemos a solução do Senado suficientemente resolvida."REGRASIrritado com a interrupção, Sarney disse que o petista feriu as regras do Senado, com um aparte sobre outro tema. "Nesse gesto, há algo que não é da personalidade de V. Exª, a não ser que V. Exª esteja tomado por tamanha paixão política que deixe de respeitar as regras mais comezinhas da educação e da convivência parlamentar", afirmou Sarney. "Eu aqui tive a oportunidade, nesta mesma tribuna, com um quadro aqui exposto com todas as acusações que foram feitas à minha presidência no Senado, de respondê-las todas, sem exceção."A intervenção de Suplicy foi planejada. Se cumprisse o regimento, Sarney poderia se retirar após seu discurso do plenário, deixando o petista "falando sozinho" sobre a crise.Em seu discurso, Suplicy citou ainda célebre artigo do francês Émile Zola - J?accuse - contra a condenação do capitão Dreyfus, cujo destinatário era o presidente da França, Félix Faure, em 1898. Suplicy explicou que fazia a citação a pedido do professor Claude Machline, da Escola de Administração de Empresas. "J''accuse é um livro no qual Zola defende a história de uma injustiça, que foi a do capitão Dreyfus. Judeu, foi expulso, veio para a Guiana. Ele, então, faz aquele livro de defesa de uma grande injustiça", contestou Sarney, que já ia saindo do plenário do Senado e voltou depois que o senador Roberto Cavalcanti (PRB-PB) fez um discurso em sua defesa. "Eu disse que Euclides escreveu Os Sertões justamente com esse sentido do J''accuse, quer dizer, no qual ele defendia a injustiça que foi o massacre de Canudos.""Não entendo que o professor Suplicy não conheça esse livro tão célebre no mundo, que se aplica muito bem se eu fosse colocar em meu lugar - é contra a história de uma grande injustiça que foi conhecida", concluiu Sarney, ao se enganar e dizer que a frase se refere a um livro.

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