Sarney partilha poder e briga para salvar cargo

Escolhido como superpresidente, parlamentar hoje é obrigado a distribuir funções e esperar que novo escândalo não torne situação insustentável

João Domingos, O Estadao de S.Paulo

27 de junho de 2009 | 00h00

Eleito em fevereiro passado para ser uma espécie de superpresidente do Congresso, a reboque da biografia de ex-presidente da República (1985-1989), o senador José Sarney (PMDB-AP) chegou ao final da semana passada na condição de um chefe com poder pela metade. O sintoma mais claro da desidratação política, mesmo dizendo que não se afastará do cargo, é que o senador já não age como presidente de fato do Senado.A nomeação do novo diretor-geral, Haroldo Tajra, e da diretora de Recursos Humanos, Doris Marize Peixoto, no início da semana, foi feita pelo secretário-geral, Heráclito Fortes (DEM-PI), e não por Sarney, embora essa seja uma das prerrogativas do presidente.De acordo com um interlocutor de Sarney, no caso da nomeação dos dois diretores da Casa, o presidente optou por uma solução que pode ser interpretada pelo dito popular: "Entregou os anéis para não perder os dedos."Sarney optou também por não mais presidir as sessões de votação, deixando a incumbência para os vices Marconi Perillo (PSDB-GO) e Serys Slhessarenko (PT-MT), além do o próprio Heráclito e de Mão Santa (PMDB-PI). Ele não tem despachado na residência oficial do presidente do Senado. Preferiu ir para seu bunker particular, uma casa que fica nas proximidades da outra, no Lago Sul, um dos setores nobres de Brasília.Foi lá que Sarney recebeu Heráclito na quinta-feira e o líder do PMDB, Renan Calheiros (AL), na sexta-feira. Sem atividades na residência oficial, o imóvel tem servido de dormitório para os seguranças que o vigiam 24 horas.Na quinta-feira, ao fazer um discurso no qual pediu o afastamento de Sarney da presidência do Senado, Pedro Simon (PMDB-RS) disse estranhar o fato de o presidente não nomear os dois diretores. Para Simon, essa é uma demonstração de que Sarney já não tem o domínio da situação e está se escudando em outros integrantes da Mesa. "No momento em que ele entrega para o primeiro-secretário a escolha dos nomes de diretor-geral, ele já está mostrando que quer afastar-se", disse o senador gaúcho, avaliando que há uma espécie de intervenção branca sobre o Senado.No discurso que fez para se defender, no último dia 16, Sarney disse que tinha sido eleito para cuidar do Senado politicamente, não para limpar a sujeira da Casa. Simon o rebateu: "O presidente Sarney é responsável pelo lixo sim. Nós todos somos responsáveis pelo lixo do Senado, principalmente o presidente do Senado. É muito bacana ser presidente do Senado só para fazer política. É bom, é gostoso, é necessário, é importante, mas vamos ver onde é que está o lixo."RESISTÊNCIADe acordo com auxiliares de Sarney, mesmo enfraquecido, mesmo sendo obrigado a dividir o poder - e ciente de que, mesmo que consiga superar a crise não terá mais a força que teve nas duas presidências anteriores (1995 a 1999) -, ele não pretende afastar-se ainda da presidência. Dois são os motivos, um familiar e um político.Na quinta-feira, houve uma reunião de Sarney com os filhos, entre eles a governadora do Maranhão, Roseana Sarney (PMDB). Feitas as avaliações, a família concluiu que, se as coisas não piorarem, dá para suportar a pressão. Se vier um escândalo novo envolvendo algum nome da família, aí todos vão se reunir novamente para ver se é preciso mudar a tática.Quanto à motivação política, Sarney e os seus auxiliares próximos avaliam que tanto o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quanto a oposição - tendo à frente os tucanos - acham que vão vencer a eleição presidencial do ano que vem. Para nenhum dos lados seria interessante, portanto, forçar a crise até levar Sarney a renunciar, convocando-se novas eleições.No caso de outra eleição, PT e PMDB poderiam repetir a briga que tiveram no início do ano, na disputa entre Sarney e Tião Viana (PT-AC), o que acabou por envolver os outros partidos. Naquela disputa interna do Congresso, os tucanos apoiaram o PT. O desgaste poderia provocar profundas fissuras entre os partidos que vão disputar a sucessão de Lula. Desse modo, na opinião de Sarney e seus auxiliares, o tempo poderá fazer com que a crise arrefeça. Num encontro com Sarney na quinta-feira, Heráclito disse que precisa de 90 dias para dar um jeito na Casa, apresentando a conclusão das sindicâncias e demitindo quem tem de demitir.

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