Sarney não pode ser tratado como pessoa comum, diz Lula

Em viagem ao Casaquistão, ele também levantou suspeita sobre veracidade de informações sobre atos secretos

Andrei Netto ,

17 Junho 2009 | 23h40

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu nesta quarta-feira, 17, em defesa do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), disse que o parlamentar não é "uma pessoa comum" e questionou a veracidade das denúncias sobre a criação de cargos e nomeação de parentes por atos secretos. A fala foi afinada com o discurso feito no dia anterior por Sarney, da tribuna, no qual ele se esquivou do escândalo, alegando que a responsabilidade é coletiva, ou seja, dos senadores e da Casa.

 

Na entrevista, antes de embarcar em Astana, capital do Casaquistão, última etapa de sua turnê pela Europa e Ásia Central, Lula criticou o "processo de denuncismo" e afirmou que não sabe "a quem interessa enfraquecer o Legislativo".

 

"Eu sempre fico preocupado quando começa no Brasil esse processo de denúncias, porque ele não tem fim e depois não acontece nada", criticou Lula, referindo-se às últimas reportagens sobre os escândalos envolvendo o Senado. "Sarney tem história no Brasil suficiente para que não seja tratado como se fosse uma pessoa comum." Em seu discurso, o parlamentar também considerou "uma injustiça", "um desrespeito", o modo como vinha sendo tratado.

 

Lula admitiu que denúncias têm de ser investigadas, mas mostrou desconfiança sobre a veracidade das informações sobre os atos secretos. "O que ganharia o Senado em ter uma contratação secreta, se tem mais de 5 mil funcionários transitando por aqueles corredores? Por que haveria de ter alguém secreto?", questionou. "Essa história precisa ser melhor explicada."

 

Segundo revelou o Estado, em uma série de reportagens nos últimos dias, Sarney tem pelo menos meia dúzia de parentes e aliados políticos nomeados por atos secretos. As informações, ao contrário das suspeitas do presidente, não são de fora do Legislativo, mas do próprio Senado. Foram apontadas por uma comissão de sindicância criada pela Casa para analisar a existência desses boletins.

 

‘ORIGEM SUSPEITA’

 

Para o presidente, as denúncias contra o Senado e o abalo na imagem pessoal de Sarney têm origem suspeita. "Não sei a quem interessa enfraquecer o Poder Legislativo no Brasil, mas eu penso o seguinte: quando o Congresso foi desmoralizado e fechado, foi muito pior para a democracia e para o Brasil."

 

Instituições como o Senado, disse Lula, precisam ser preservadas, mesmo que "uma investigação correta" deva acontecer quando houver "alguma coisa errada". "O que não pode é todo dia se arrumar uma vírgula a mais ou repetir a mesma matéria", afirmou o presidente. "Vai desmoralizando todo mundo, cansando todo mundo. E inclusive a imprensa corre risco, porque ela também tem de ter a certeza de que não pode ser desacreditada." O resultado da "política do denuncismo" não é bom, frisou Lula. Ele não quis indicar o que devem fazer, ante denúncias, Sarney e os presidentes da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), e do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes.

 

Por fim, Lula disse que a nova crise não atrapalha sua gestão. "O governo tem sua programação determinada, acho que todos os senadores, a começar pelo presidente Sarney, têm responsabilidade de dirigir bem os destinos do País, do Congresso. Vamos esperar que essas coisas se resolvam rápido."

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