Sarney intervém na comunicação do Senado

Irritado com atuação da TV e da rádio da Casa, ele escala braço direito para comandar área

Leandro Colon, BRASÍLIA, O Estadao de S.Paulo

12 de agosto de 2009 | 00h00

Incomodado com as transmissões da TV Senado, o presidente José Sarney (PMDB-AP) decidiu nomear seu assessor e braço direito Fernando César Mesquita para dirigir a Comunicação Social da Casa. A decisão ocorre 12 dias após Fernando Sarney, filho do senador, conseguir uma liminar na Justiça para proibir o Estado de divulgar gravações feitas pela Polícia Federal com autorização judicial numa investigação contra ele. A iniciativa de Sarney faz parte da estratégia para controlar a burocracia administrativa do Senado e ter o apoio da maioria dos servidores em meio ao desgaste político com senadores. Ontem, o Estado revelou que o senador manteve as gratificações incorporadas aos salários de funcionários por meio de atos secretos. Agora, Sarney tenta evitar que facções de servidores contrárias a seu mandato na presidência tenham espaço na estrutura de comunicação da Casa. Nas últimas duas semanas, Sarney reclamou com assessores da atuação da TV e da Rádio Senado. Na avaliação dele, as transmissões davam mais espaço às denúncias contra ele e brigas em plenário do que às medidas administrativas anunciadas para conter a crise. Um primeiro movimento de reação começou na quinta-feira da semana passada. A TV Senado chegou a interromper, por alguns segundos, a transmissão do bate-boca entre Tasso Jereissati (PSDB-CE) e Renan Calheiros (PMDB-AL). No lugar, botou um programa sobre saúde mental. Mesquita foi avisado do novo cargo na segunda-feira. O setor de comunicação cuida também do Jornal do Senado, do site e da relação institucional com a imprensa. Assessor parlamentar da presidência do Senado, ele substituirá Ana Lúcia Novelli, servidora de carreira, que estava no cargo desde 30 de abril. Mesquita trabalha com o senador há 25 anos. No governo Sarney, foi presidente do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) e governou o arquipélago de Fernando de Noronha, quando ainda era um território. Atua no Senado também como articulador político. Em conversas reservadas, é uma das poucas pessoas que referem-se a Sarney como "Zé". Mesquita já foi diretor de Comunicação do Senado na primeira gestão de Sarney.Ontem, ele negou que sua nomeação seja uma intervenção de Sarney nas transmissões da TV e da Rádio Senado. Mas adotou o discurso de que, a partir de agora, haverá "isenção". "Os critérios básicos são de isenção, lisura, total transparência, sem privilégios a quem quer que seja", afirmou. "Agora, o que quero é que seja cumprido exatamente o que foi programado desde o começo: se um senador tem um espaço, o senador contrário tem de ter o mesmo espaço", ressaltou. O líder do PSDB, Arthur Virgílio (AM), interpelou Sarney em plenário sobre o assunto. O presidente alegou ter trocado a diretoria de comunicação em razão da reforma administrativa que será efetuada após o estudo da Fundação Getúlio Vargas. Segundo Sarney, seu assessor é "o melhor homem que podia comandar essa reforma neste momento de modificações tecnológicas". O senador negou insatisfação com o trabalho jornalístico dos órgãos do Senado. É a segunda vez que Sarney troca de diretor da área desde que assumiu a presidência do Senado, em fevereiro. Elga Teixeira Lopes perdeu o cargo de diretora de comunicação após a revelação de que fez campanhas eleitorais - inclusive para a família Sarney - sem pedir licença do Senado.

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