Sarney e Maluf relembram eleição presidencial de 1985

Senador, que assumiu a Presidência após a morte de Tancredo, e deputado, candidato derrotado, falam sobre a votação

O Estado de S.Paulo

11 de janeiro de 2015 | 02h02

José Sarney

Senador, ex-governador do Maranhão e ex-presidente; vice de Tancredo, assumiu o comando do País após sua morte

O Colégio Eleitoral era uma aparência de legalidade para a eleição do presidente, mas faltava-lhe o essencial: legitimidade. Ele não elegia, e sim homologava a escolha dos quartéis.

Em 1984, Figueiredo sonhou prorrogar seu mandato. Tinha o apoio da linha-dura, firme em obedecê-lo. Mas não sabia ele que já estava muito avançada a candidatura Tancredo Neves. Só faltava a concordância de Ulysses Guimarães em ir ao Colégio Eleitoral. Encarregado o Franco Montoro de obtê-la, teve sucesso e viajou a Minas com a boa nova: "Vamos ao Colégio. Ulysses aceita."

Tancredo estava preparado. Agora era obter o apoio de Aureliano Chaves. Jorge Bornhausen, Marco Maciel, Guilherme Palmeira e eu teríamos essa missão. Grande homem público, Aureliano colocou acima de todos os seus interesses políticos os do País, e apoiou com a condição de indicar o vice.

Eu já renunciara ao PDS. No Edifício Brasal, há tempos funcionando como comitê eleitoral de Aureliano, convertido em Frente Liberal, trabalhávamos dia e noite com os delegados, com acompanhamento diário. Tínhamos certeza de que estava largamente fechada nossa maioria, tanto que na votação, quando veio o voto 344, nossa emoção estava antecipada.

E minha candidatura a vice? Tancredo me dizia: "Tem que ser você, que conhece o mapa da mina". E Aureliano: "Sem você não haverá Aliança Democrática". Fiz tudo para que Marco Maciel aceitasse. Mas, como diz Fernando Pessoa, "cumpri contra o destino o meu dever".

Sabe Deus o que evitamos e o quanto servimos ao Brasil. Foi a mais difícil engenharia política do gênio brasileiro de resolver crises: o regime militar era passado.

Paulo Maluf

Deputado federal, ex-governador e ex-prefeito de São Paulo, derrotado por Tancredo na disputa do Colégio Eleitoral

Fui candidato no Colégio Eleitoral porque achei que poderia administrar o Brasil de maneira moderna. Havia sido governador de São Paulo e tinha o apoio da população do Estado. Cheguei à Câmara como o deputado federal mais votado do Brasil, com 672 mil votos.

O Tancredo Neves foi escolhido pelo PMDB porque o partido achava que Ulysses Guimarães, o candidato natural, não seria aceito pelos militares por diversas razões. Entre outras coisas, havia chamado o Ernesto Geisel de 'Idi Amin branco". O Ulysses também era menos palatável para os camaradas do antigo PDS, que iriam apoiar Tancredo, com a Frente Liberal que eles organizaram.

Montei a minha chapa, que tinha o Flávio Marcílio como vice, e percorri o Brasil divulgado o programa Brasil Esperança. No dia da eleição, após saber do resultado, saí do plenário da Câmara, fui até o Senado, cumprimentei Tancredo pela vitória, dei um abraço nele e saí de cena. Era hora de dar um tempo.

Com todo o respeito ao José Sarney, que era o vice de Tancredo e assumiu a Presidência, acho que Deus não foi brasileiro naquela ocasião. Quem tinha estoque político e eleitoral para fazer as reformas que o País precisava era o Tancredo. O Sarney ficou prisioneiro do Ulysses e do PMDB durante todo o tempo.

Fizeram a Nova República com o Tancredo, mas quem foi para o governo foi o presidente do PDS, José Sarney; o governador biônico de Pernambuco, que era o Marco Maciel; o governador biônico da Bahia, Antonio Carlos Magalhães; o governador biônico de Santa Catarina, Jorge Bornhausen. Então, todos os biônicos da revolução foram para o governo da Nova República.

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