PABLO VALADARES/AE
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Sarney diz que filho pagou por apartamento e ataca 'Estado'

Segundo presidente do Senado, jornal não exibiu provas ao informar que o imóvel foi pago por uma empreiteira

André Mascarenhas, do estadão.com.br,

17 de agosto de 2009 | 16h12

O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), disse em discurso no plenário nesta segunda-feira, 17, que o jornal O Estado de S.Paulo "está empenhado numa campanha sistemática" contra sua presidência, e classificou a atitude do jornal como "nazista". Segundo Sarney, o jornal não exibiu provas ao informar, no domingo, 16, que dois apartamentos utilizados por seus familiares em São Paulo foram pagos por uma empreiteira.

 

"O jornal vem se empenhando numa campanha sistemática contra mim, adotando uma prática nazista, que era aquela que eles adotavam de acabar com as pessoas, denegrirem a sua honra, a sua dignidade, até com os judeus levarem à câmera de gás. Felizmente no Brasil não temos câmera de gás. Este tem sido o comportamento do O Estado de S. Paulo senhor presidente", discursou Sarney, para depois encaminhar sua defesa.

 

De acordo com o presidente do Senado, um dos apartamentos consta na declaração do Imposto de Renda de seu filho, Zequinha Sarney. Ainda segundo ele, a escritura do apartamento não aparece em nome de seu filho porque o imóvel não foi pago por completo.

 

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Em sua defesa, o presidente do Senado disse ter comprado o primeiro apartamento no edifício Solar da Vila América, na região dos Jardins, em 1977, para que seus filhos viessem estudar na capital paulista. A versão é a mesma do jornal, que confirma pertencer a Sarney o apartamento número 82.

 

"O prédio na Alameda Franca, modesto, quase saindo na Rebouças, é um prédio de apartamento de 85 metros quadrados. Eu comprei o primeiro apartamento ali, em 1977, ainda em construção para ali morarem meus filhos que estudavam na Escola Politécnica e outro na Faculdade Católica", explicou.

 

Ainda segundo Sarney, o apartamento, numa das regiões com metro quadrado mais caro da capital, é símbolo da simplicidade de sua família: "Agora, já na terceira geração, este apartamento, quem vai lá, muitos colegas meus já foram, até admiram: Como é que o presidente Sarney mora num apartamento de uma sala muito pequena e dois quartos?", disse Sarney.

 

No entanto, de acordo com a reportagem de domingo, mais dois apartamentos no edifício - o 22 e o 32 - seriam usados por familiares e assessores de Sarney. Eles estão em nome da empresa Aracati Construções, Assessoria e Consultoria Ltda, cuja razão social foi alterada para Holdenn Construções, Assessoria e Consultoria, e que tem como nicho de atuação o setor elétrico - área do governo federal em que Sarney exerce influência.

 

Sarney deu explicações sobre apenas um dos apartamentos: "Agora, meus netos estão estudando em São Paulo e meu filho Sarney Filho compra um apartamento no mesmo edifício porque era mais fácil, onde já moravam seus primos. E declara no seu Imposto de Renda que está pagando no contrato de compra e venda. A escritura não foi passada porque ainda não terminou seu pagamento, mas já consta no seu IR as prestações que ele tem passado."

 

Em nota publicada no Estado desta segunda, Zequinha Sarney afirma estar pagando pelo apartamento 22 do edifício, e diz que "o apartamento 32, também citado na matéria como da família, não nos pertence". Em junho passado, no entanto, o próprio presidente do Senado se hospedou na unidade, durante viagem a São Paulo.

 

A nota, no entanto, não explica a participação da Aracati na transação. Além disso, a certidão do imóvel mostra que, desde a aquisição do apartamento pela Aracati, não há qualquer outro registro de mudança de propriedade do imóvel. Nem mesmo o "contrato de promessa de compra e venda" que Zequinha diz possuir está averbado no registro do apartamento. Oficialmente, o imóvel é da Aracati.

 

Criticas aos colegas

 

Sarney também cobrou de seus colegas senadores as declarações feitas em relação à denúncia do Estado. O senador considerou que o presidente do PSDB, senador Sérgio Guerra (PE), e o presidente da Comissão de Constituição e justiça do Senado, Demóstenes Torres (DEM-GO), foram precipitados ao dizer que a denúncia deveria gerar investigações.

 

"O presidente da Comissão de Constituição de Justiça, meu colega, meu amigo, diz, é categórico, ao defender que 'a evidência de troca de favores são motivos de sobra para instaurar uma investigação'", disse, em referência às declarações de Torres ao Estado desta segunda.

 

E desabafou: "Senhor Presidente, isso cabe na cabeça de alguém, de uma notícia de jornal instaurar uma investigação? Se alguém comprasse algum imóvel, se tivesse algum pagamento de imposto que você não tivesse feito e que você soubesse, você denunciava à Receita Federal, mas isso? O que é que tem a ver com o Senado? É por isso a minha indignação!"

 

Além das menções à "campanha sistemática" ao supostos métodos "nazistas" do Estado, Sarney também questionou a qualidade das informações divulgadas pelo jornal. "O Estado se transformou hoje num jornal que, na verdade, ele passou a ser, ao invés de um jornal que era lido, respeitado, passou a ser um tabloide londrino, daqueles que buscam um escândalo para vender", criticou.

 

O discurso gerou reações dos senadores. Cristovam Buarque (PDT-DF) disse que pediria a abertura de uma nova representação contra Sarney caso o jornal não desminta as reportagens. Já Pedro Simon (PMDB-RS) voltou a pedir o afastamento do senador.

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