Celso Junior/AE
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Sarney deve se afastar da presidência do Senado, diz Simon

Senador, que é do partido de Sarney, foi à tribuna após 'Estado' revelar envolvimento de neto em esquema

25 de junho de 2009 | 15h35

O senador Pedro Simon (PMDB-RS) subiu à tribuna nesta quinta-feira, 25, e pediu para que o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP) saia do cargo. "Eu digo aqui com profundo sentimento de mágoa, não gostaria de dizer o que vou dizer: Sarney tem que se afastar da presidência. Já falei isso, não da tribuna, mas falei. Ele deve se afastar. Para o bem dele, da família dele e do Senado. Não que a saída dele signifique auto-culpa, punição, pelo contrário. Representa ato de grandeza", defendeu Simon. Ele disse que "Sarney é responsável pelo lixo, sim". "Todos somos, principalmente o presidente do Senado. É muito bom ser presidente para fazer política. Mas é importante ver onde está o lixo", afirmou.

 

Pouco antes, em entrevista ao estadao.com.br, Simon explicou que tomou a decisão de ir à tribuna  após a nova denúncia publicada em O Estado de S. Paulo, segundo a qual um neto de Sarney - José Adriano Cordeiro Sarney - é um dos operadores do esquema de crédito consignado para funcionários da Casa.  para Simon, Sarney já dá sinais de que também quer se afastar.

 

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Ainda em defesa da saída de Sarney, que é do seu partido, Simon afirmou que é melhor o senador deixar a presidência agora "antes que sua situação fique totalmente insustentável": "Ele tem que sair", repetiu. Simom lembrou que a crise vem de longa data. "Essa crise, dizem que vem de 15 anos. Há 15 anos foi o primeiro mandato como presidente do Senado (do Sarney). Ele escolheu o senhor Agaciel (Maia, ex-diretor-geral)." E lembrou que o ex-diretor ficou na função mesmo com a passagem de outros presidentes: ACM, Renan Calheiros, Garibaldi Alves.

 

Simon citou a nova denúncia que envolve o neto do senador e uma outra que envolve um ex-motorista de Sarney. "A biografia do rapaz (neto), eu achei espetacular. A atividade dele também. Mas se vamos apurar o que o Estadão e a Folha colocarem na manchete, não é bom que o avô esteja na presidência. Não fica bem para ele, não é interessante para ele. Já tem que ver o mordomo, que dizem que é da filha. Ele diz que é motorista do Senado. Mas tem que ver. É cada dia uma manchete, e cada dia uma questão diferente. Olha estou aqui, não vou ler. Mas todas estão aqui. A culpa é do mordomo, é o que a imprensa está colocando", afirmou.

 

O peemedebista questiona Sarney: "Mas senador, o senhor não sabia do ato secreto? Não sabia dos funcionários? Que tinha negócio de banco? Que outros bancos entraram para fazer empréstimo? O senhor não sabia? E cai no ridículo: 'Eu não sabia'. E cita a falta de credibilidade do Senado por conta das denúncias. "Ninguém acredita em nós nesta Casa ou em coisa nenhuma. Primeiro gesto do presidente Sarney, que é de grandeza, é ele se afastar. Não foi ele que foi analisar se o problema com filho dele está certo ou errado, mas não é ele quem vai responder isso. Analisar o problema com o mordomo, do diretor- geral. Que se afaste", voltou a dizer.

 

Simon comparou a situação atual com a CPI dos Anões do Orçamento. "Ali, cassamos 14 parlamentares, fizemos uma limpa naquela comissão, fizemos uma limpa pra valer. Acho que vamos ter coragem pra fazer isso", continuou.

 

O senador em seu discurso citou reportagem do Estado sobre os atos secretos da Casa: "Em primeiro lugar é a comissão de funcionários que vossa excelência (Heráclito Fortes) apresentou. Eu li com calma. É um trabalho, um trabalho burocrático. Pegou uns 900 atos e ainda assim com equívocos que não sei quem fez. O meu caso está lá como ato secreto. Não teve ato secreto nenhum. Fui lá ver qual o ato que foi publicado: é que eu fui indicado para membro da comissão de 180 anos do Senado Federal. Eu vou culpar o Estadão porque botou: Pedro Simon é um dos 40 beneficiados com ato secreto? Não posso culpar. Por que vou culpar? Está lá, as coisas aconteceram. Mas vou culpar a maneira como essas coisas são feitas".

 

O PSOL informou que vai entrar com representação no Conselho de Ética do Senado contra contra Sarney e contra os ex-presidentes Renan Calheiros (PMDB-AL) e Garibaldi Alves (PMDB-RN). Internamente, o PSOL discute se as representações serão protocoladas nesta quinta-feira, 24, como defende Heloisa Helena, ou se na próxima semana. A representação do PSOL pode obrigar Sarney a se afastar. Uma resolução do Senado prevê afastamento preventivo quando membro da Mesa Diretora é alvo de processo.

 

Enquanto Simon discursava, o presidente do Senado dirigiu-se ao sentido oposto ao do Senado, para ir a uma consulta a seu oftalmologista no Centro Brasileiro de Visão (CBV). Sarney não tem agenda nesta quinta no Senado.

 

Apoio

 

Na opinião de senadores, a denúncia é grave. O senador Renato Casagrande (PSB-ES) acredita que o "presidente Sarney está chegando ao limite". Está chegando a um ponto que ele querendo ou não querendo, os fatos vão atropelá-lo. Não conversei com meu partido ainda (sobre pedir a saída), mas a minha interpretação é que está chegando ao limite".

 

Casagrande, nega, no entanto, que haja um movimento articulado pedindo a saída de Sarney. "Não tem um movimento articulado, uma decisão de um grupo de forma coletiva da situação do presidente. O que está claro é que a situação do presidente está cada vez mais frágil, de insustentabilidade política."

 

O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), afirmou que a situação de Sarney com a nova denúncia caminha para a "inviabilidade". O senador voltou a cobrar respostas imediatas e drásticas por parte de Sarney. "Não sei se é licença ou renúncia. Mas ele está indo mal e precisa responder com urgência. O que se desenha é uma crise institucional. Creio que seja a maior que já vi depois da ditadura militar. É uma crise maior que a do mensalão, porque envolve agora um poder mais fraco do que o Executivo", ressaltou.

 

O senador Cristovam Buarque (PDT-DF) engrossou a corrente dos senadores que sugerem o afastamento de José Sarney.

 

O argumento de Buarque é o de que a indignação do povo "está rapidíssima", enquanto a reação do Senado às notícias diárias dos jornais, muito mais lenta. "Não se trata de renúncia, mas de licença", defendeu Buarque. "Mas licença como uma sugestão, e não como pressão. Algo de foro intimo dele", acrescentou.

 

Para o senador do PDT, o que a população brasileira quer são eleições gerais e a dissolução deste Congresso. "E vamos falar com franqueza e sem a necessidade de nenhum instituto de pesquisa: raríssimos voltariam aqui", previu.

 

O senador Eduardo Suplicy (PT-SP) afirmou que concorda com a sugestão de Simon de afastamento de José Sarney (PMDB-AP) da presidência da Casa.

 

"Se estivesse no lugar de Sarney e tivesse ocorrido essas coisas com meus queridos netos, seguiria a recomendação de vossa excelência e me afastaria por um tempo, para dar condição de se esclarecer todo o episódio", disse Suplicy, falando diretamente a Simon, que ocupa a tribuna no momento.

 

Outras opiniões

 

O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) solicitou durante discurso no plenário que o presidente da Casa dê explicações convincentes a respeito das acusações que vem sofrendo da imprensa, mas não vê motivo para pedir seu afastamento.

 

"Não devo pedir que Sarney se afaste ou renuncie, pois foi eleito. Mas acho que tenho o direito de pedir que seja enérgico, veemente, que responda às indagações", afirmou, lembrando que diariamente são publicadas pelos jornais denúncias envolvendo o presidente da casa. "A cada dia, aparecem novos fatos de uma mesma matriz da crise." Para Dias, as denúncias da imprensa não podem ficar sem resposta. Precisam ter, segundo ele, a contundência compatível com a denúncia. "Devem ser céleres e, sobretudo, convincentes", argumentou.

 

O líder do DEM, José Agripino (RN), foi mais cauteloso e disse que vai esperar esclarecimentos de Sarney sobre a nova denúncia. "A denúncia é grave e ele (José Sarney) precisa prestar esclarecimento à opinião pública e a Casa. Em função disto, o partido tomará uma posição".

 

O senador Wellington Salgado (PMDB -MG) mostrou-se inconformado  com a sugestão de Simon. "Se afastar por que se ele está agindo com transparência?", questionou. "Sarney está cortando quem deveria cortar", continuou.

 

Salgado explicou que sua avaliação é a de que como a economia vai bem, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem alta aceitação, é preciso atacar alguma instituição e esta instituição seria o Senado. "É um sinal de autoflagelação? Eu sou contra. Vamos nos atacar porque não temos quem atacar", indagou.

 

Para o senador, se Sarney for afastado do cargo virá outro senador para o seu lugar e continua o risco de haver novas denúncias novamente. "Sou espectador, mas não sou burro. Sou suplente, mas não sou burro. Me tacham como se eu fosse um subproduto", reclamou.

 

(Com Célia Froufe, Denise Madueño e Eugênia Lopes, de O Estado de S.Paulo)

 

 

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