Sara, 3 anos, amotinada em um quartel

Há 10 dias, Marcos Antônio Nascimento dos Santos passou a dar uma atenção especial para Sara, a filha de três anos, como há muito não fazia. Hoje a menina passa praticamente o dia no colo do pai, mas tem de dividir o espaço com um objeto que jamais viu em sua vida: uma metralhadora. Nascimento é um dos 800 soldados grevistas da Polícia Militar de Tocantins que está aquartelado no 1º Batalhão PM, em Palmas, e decidiu aderir ao movimento no dia em que sua mulher Aurimar adoeceu e não havia dinheiro para comprar remédios.A família Nascimento é uma das inúmeras que estão dentro do quartel pedindo melhores salários para os PMs, mas que correm o risco de serem as principais vítimas do confronto com militares do Exército que estão bem próximos do 1º BPM. "Estou há oito anos na PM e nunca participei de nenhuma greve, mas agora não dava mais", conta Nascimento, que ganha R$ 235,00 mensais. "Meu salário bruto era R$ 615,00, mas os descontos são muitos." O soldado passa o dia com a família, mas esquece que ela existe quando se aproxima um carro de combate do Exército. "Eles estão querendo nos assustar", diz o soldado Sérgio Rodrigues, seu vizinho. E ele tem razão. Todos se levantam, engatilham as armas e acompanham tensos a movimentação dos militares. As mulheres deixam seus afazeres e se juntam aos maridos, enquanto as crianças ficam praticamente perdidas na multidão de PMs.Nascimento diz que trabalha até 18 horas por dia, uma das principais razões que o impedem de dar atenção à filha. "Corremos risco 24 horas", diz ele, admitindo que muitos de seus companheiros fazem "bicos" para garantir um melhor salário para a família. Mas o pior, segundo ele, é a opressão de seus superiores dentro dos quartéis. Se no trabalho o soldado é comandado, no aquartelamento parece faltar comando. Apesar de haver um grupo que lidera a greve, a impressão que se tem dentro do 1º BPM é que, quando houver situação de perigo, será cada um por si.Sara não entende nada do que está acontecendo, apenas olha curiosa outras crianças tomando banho de mangueira, ou transitando em meio aos soldados fortemente armados, que não deixam os fuzis e metralhadoras nem mesmo nos raros momentos de descontração. Eles sabem que, a qualquer hora, pode haver uma decisão sobre o impasse que já dura 10 dias.

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