Saques, bloqueios e ocupações marcam Dia de Luta pela Terra em PE

Dois saques, três bloqueios de estrada, um ato público e uma reocupação de terra, pelo MST, e 53 ocupações em 26 municípios, pela Federação dos Trabalhadores na Agricultura de Pernambuco (Fetape), foram realizados nesta quarta-feira, em todo o Estado, no Dia Nacional de Luta pela Terra.As manifestações, que envolveram um total de cerca de 8 mil pessoas, de acordo com os movimentos, protestaram contra a reforma agrária do Governo Federal e o plano "Sertão Cidadão", de atendimento aos flagelados da seca.Os saques - a um caminhão carregado com carne de charque, arroz e refrigerantes e a uma caminhonete com café - ocorreram respectivamente na BR-101, em Gameleira, na zona da mata, e na PE-430, em São José do Belmonte, na fronteira com o Ceará.No primeiro, aproximadamente 500 sem-terra (de acordo com a Polícia Militar) bloquearam a rodovia durante quatro horas - das 7 horas às 11 horas - provocando um engarrafamento de oito quilômetros.A PM foi ao local, mas não houve confronto. Enquanto a polícia se mantinha na área do bloqueio, um grupo saiu e saqueou o caminhão em outro trecho da BR-101, segundo o coordenador do MST na zona da mata Sul, Edílson Barbosa.Não foi prestada queixa do saque, e o MST não informou a quantidade de produtos saqueados. O segundo saque ocorreu depois que o juiz de São José do Belmonte, Assis Timóteo, foi ao local e pediu aos sem-terra para deixarem a área sem conflito e sem saque.Eles prometeram acatar o pedido, mas, com a saída do juiz, voltaram a bloquear a estrada e saquearam uma caminhonete da empresa Indústria de Torrefação e Moagem Café Maratá, de Sergipe, dirigida por Irandir do Nascimento Santana, que transportava 30 quilos de café.Segundo a Polícia Militar, cerca de 100 sem-terra participaram da ação. Os trabalhadores se mantiveram no bloqueio até à tarde, e o MST informou que não houve mais saques porque não passaram caminhões com alimentos.O terceiro bloqueio foi na BR-232, em Caruaru, no agreste, seguido de ato público defronte da Companhia de Armazéns Gerais de Pernambuco (Ceagepe), na cidade.Segundo a assessoria de imprensa do MST, o ato contou com a presença de cerca de 2 mil pessoas, e o prédio, com estoque de alimentos, só não foi invadido e saqueado devido à presença de grande número de policiais.À tarde, parte dos sem-terra seguiu, de ônibus, para o município vizinho de Toritama, a fim de reocupar a Fazenda Moreira, em homenagem ao trabalhador José Marlúcio da Silva, assassinado há um ano pela PM durante manifestações do MST no Recife.José Marlúcio estava acampado nessa fazenda. Sua família foi visitada pelo ministro do Desenvolvimento Agrário, Raul Jungmann, que prometeu o assentamento dos familiares. "Até hoje, a área sequer foi vistoriada", afirmou o líder regional do MST, Jaime Amorim.Para Amorim, os atos desta quarta mostraram que "o povo está descontente e vai continuar lutando por terra, por respeito e por condições dignas de vida".Segundo balanço da Fetape, 5,8 mil trabalhadores ocuparam 53 áreas, num total de 36,2 mil hectares, em 26 municípios, com pequenos incidentes com a polícia sendo contornados em Passira, Cabrobó e Serra Talhada, no sertão.As ocupações, de acordo com o secretário de política agrária da entidade, João Santos, tiveram como principal objetivo repudiar a "reforma agrária via Correios" do Governo Federal.Segundo ele, 6 mil trabalhadores ligados à Fetape se cadastraram em maio e até agora ninguém foi entrevistado. Santos antecipou que, se em três meses nada for feito, os trabalhadores irão, em massa, ocupar a sede do Incra no Recife. Ele afirmou que a maioria dos que participaram das ocupações estão cadastrados.A Fetape também protesta contra a Medida Provisória que proíbe vistorias em áreas ocupadas. Para evitar impedimento no processo de desapropriação, as ocupações foram realizadas de forma simbólica, com os trabalhadores acampando nas proximidades das terras que reivindicam. O superintendente regional do Incra, Geraldo Eugênio, disse que os saques realizados nesta semana pelo MST (quatro no total) e as ocupações da Fetape têm cunho político. "Os saques foram uma coisa completamente atabalhoada, e parte deles se realizou em áreas em que está chovendo, o que descaracteriza seca", afirmou."Quanto às ocupações, elas mostram que a reforma agrária é importante para Pernambuco, mas deve ter um mínimo de organização". Segundo ele, os movimentos sociais não têm o direito de enganar os trabalhadores "prometendo o que sabem que não pode ser feito", e nem o Incra pode fazer tudo o que eles querem a tempo e hora.Geraldo Eugênio ressaltou que nos últimos três meses foram desapropriados 20 engenhos da Usina Central Barreiros, na zona da mata, com 13 mil hectares, onde serão assentadas 1,2 mil famílias. "Não se pode dizer que o Incra não está funcionando", disse.Ele reconheceu que o órgão não vai poder atender as 20 mil pessoas que se cadastraram nos Correios em todo o Estado para a reforma agrária. A meta para este ano é assentar 2 mil.

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