São Paulo tem 753 mil na fila da Saúde

São Paulo tem 753 mil na fila da Saúde

Número de pacientes que aguardam exame, cirurgia ou consulta com especialista representa 11,5% dos usuários; reduzir espera é desafio

Adriana Ferraz, O Estado de S.Paulo

11 de setembro de 2016 | 06h00

Dherick ainda era um bebê de colo no dia em que entrou para a fila da saúde. Tinha 9 meses quando a sua mãe foi orientada a procurar um otorrinolaringologista para avaliar a respiração do garoto. Dois anos depois, Joyce Aparecida Dias, de 19 anos, continua aguardando por um contato da Prefeitura. O filho já aprendeu a andar, a falar, frequenta a escola, mas até agora não encontrou o tal especialista.

A demora excessiva é apontada como uma das principais deficiências da rede municipal, que avançou nos últimos anos, mas ainda representa o maior problema da cidade, na avaliação dos paulistanos. Com o aumento do desemprego, a procura por serviços públicos só tende a crescer. Hoje, já são 6,5 milhões de usuários – desses, 753 mil, ou 11,5%, estão à espera de algum tipo de atendimento.

Dherick ronca muito ao dormir. A suspeita é de que ele tenha carne esponjosa no nariz. “Eu tive o mesmo problema. Se pudesse levá-lo ao médico, talvez pudesse resolver isso logo. Não é nada tão complexo, mas fico preocupada. Chego a passar as noites acordadas, para ver se ele está respirando direito”, conta a paciente da Unidade Básica de Saúde (UBS) da Vila Dionísia, na zona norte da capital.

Dados oficiais informam que o tempo médio de espera hoje para uma consulta de especialidade é de cinco meses – o caso do menino seria, portanto, uma exceção. Basta, porém, conversar com os moradores da periferia para encontrar várias exceções. Fernanda Marcelino dos Santos, de 31 anos, precisa fazer uma pequena cirurgia plástica no braço. Após sofrer uma queimadura de terceiro grau, ficou com parte da pele repuxada.

“Entendo que demore um pouco, mas um ano e meio é muita coisa e já faz todo esse tempo que estou na fila. Acho que esqueceram de mim.” Fernanda espera ser chamada pela Rede Hora Certa, equipamento criado pela atual gestão para reduzir a fila por cirurgias. São 33 em operação. 

Segundo o presidente do Sindicato dos Médicos de São Paulo, Eder Gatti, abrir unidades, porém, não deve ser prioridade. “Novos serviços demandam mais recursos de custeio, num momento financeiro difícil. É preciso ter foco, investir na atenção primária, capaz de resolver até 80% das demandas dos pacientes”, diz.

Vínculo. Fazer um exame demora, em média, três meses e meio. É a única fila que cresceu – são 417,2 mil pessoas na espera. Segundo Gatti, se a prioridade fosse o Programa Saúde da Família, os pedidos de exame seriam reduzidos, já que os médicos conheceriam o histórico dos pacientes.

Outra consequência seria o esvaziamento dos prontos-socorros, necessário, diante do déficit de médicos. A capital tem hoje 14.921 profissionais na rede – quando o prefeito Fernando Haddad assumiu, eram 14.270. A ampliação é pequena, diante da demanda e dos novos serviços ofertados. Nem a Prefeitura nem as organizações sociais que dividem a gestão da saúde conseguiram apresentar solução para o problema.

Com o sistema desigual, os moradores têm expectativas também desiguais, como o tempo médio de vida. Viver em bairro valorizado, por exemplo, pode render 25 anos a mais.

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