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São Paulo - Brasília

Cidades parecem dois países sob dois governos e com cada povo falando sua própria língua; Aos poucos, a realidade vai se aproximando da expectativa na política, e Brasília do resto do País

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

06 Agosto 2017 | 03h00

Morei e trabalhei dez anos em Brasília, um período de imersão na política brasileira, em que aprendi a andar pelos prédios de Niemeyer, a entender os códigos, a ler os sinais, a enxergar um pouco o que se passa nos bastidores.

Já faz oito anos que voltei a São Paulo, minha cidade natal, mas neste período nunca passei mais que dois meses sem ir à capital federal, a trabalho ou para rever amigos.

Apesar de ficarem a apenas uma hora e meia de distância, as duas cidades, do mesmo Brasil, parecem ser regidas por estações do ano, fusos horários, regimes políticos e códigos éticos completamente diversos. Dois países sob dois governos e com cada povo falando sua própria língua.

Uma semana na ponte São Paulo-Brasília funciona como um bom exercício de confrontar a expectativa – da população, da imprensa, dos políticos, dos juízes e procuradores – com a realidade, guiada sobretudo pela economia e pela Lava Jato.

É esta mediação que explica por que não será possível nem o desejo naive de se exterminar o establishment político com um só sopro nem as tentativas espúrias de preservar esse mesmo status quo inalterado à base de leis encomendadas e operações abafa urdidas nos bastidores.

A própria salvação temporária de Michel Temer é um emblema disso. Mesmo preservado na Presidência, algo que a opinião pública tem dificuldade de entender diante dos escândalos revelados e da baixa popularidade, o presidente será, até passar a faixa, apenas uma sombra – realidade que ele finge ignorar ao posar de estadista depois de ter se safado à custa de fisiologismo na veia. 

Nem a indignação ingênua e estridente de São Paulo nem o cinismo dos gabinetes de Brasília. O Brasil amadurece aos trancos e barrancos, e vai construindo um caminho em que há cicatrizes, desalento e ruídos, mas em que as tentativas de preservar inalterados os privilégios dos políticos esbarram num arcabouço institucional cuja solidez vai se forjando na marra.

Seria melhor que Temer caísse? Uma conversa mais franca fora dos microfones em que deputados passavam ridículo mordendo bonecos de plástico ou exibindo suas tatuagens cafonas mostrava que nenhum dos lados tinha certeza. Nem o Ministério Público a tinha. Menos ainda o Supremo Tribunal Federal, que suspirou aliviado de não ter de enfrentar mais essa situação-limite.

Foi melhor que ele tenha ficado? Ninguém igualmente é capaz de asseverar, uma vez que novamente expectativa e realidade vão se confrontar quanto às chances de execução de uma agenda mínima do governo ressurrecto.

A reforma da Previdência não passará sem ser completamente mitigada, a ponto de só lhe restar o título. A reforma política nada mais será que a tábua de salvação à qual os políticos se agarrarão para tentar sobreviver à eleição do ano que vem. 

A falta de nitidez sobre se haverá, depois de quatro anos de Lava Jato, uma mudança efetiva (e de que monta) em 2018 está nos pesadelos dos desalentados de São Paulo e do resto de Brasil e dos desorientados políticos de Brasília. De novo, a verdade está no meio: não se pode imaginar que movimentos como “não vamos reeleger ninguém” terão êxito, até pela premissa arrogante de quem acha que faz militância política porque tem um perfil nas redes sociais. Mas se os políticos acharem que basta passar uma maquiagem nos partidos e mudar seus nomes, mantendo as caras e as práticas, para tudo ficar inalterado, levarão um tombo nas urnas.

Pensando bem, depois de uma semana lá e cá, é bom que seja assim. E assim, aos poucos e dentro dos marcos do Estado democrático de direito, a realidade vai se aproximando da expectativa, e Brasília do resto do País.

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