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Samba do peemedebista doido

Pior do que o PMDB mandando no Executivo e no Legislativo é o PMDB, rachado, mandando no Executivo e no Legislativo. Mas é exatamente isso que está ocorrendo. A mais nova crise é entre o PMDB da Câmara e o do Senado. O partido é insaciável e o poder tem dessas coisas: quanto mais se tem mais se quer e, daí à guerra interna por espaços, é um pulo.

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

26 Abril 2015 | 02h03

O comandante é o vice-presidente Michel Temer, mas o presidente da Câmara, Eduardo Cunha, guerreia com o do Senado, Renan Calheiros, que guerreia com o relator do Orçamento, Romero Jucá, que acaba de defender a presidente Dilma Rousseff, mas em 2014 votou ostensivamente no tucano Aécio Neves e contra a aliança PT-PMDB. Um samba do peemedebista doido.

O problema de Cunha é que ele é em tese do exército da Dilma, mas tem sua própria tropa na Câmara, mantém armas apontadas para o Planalto e disputa forças com Renan. Às vezes, até para ver quem cria mais problemas para Dilma.

O novo pretexto para o confronto é a terceirização de mão de obra. Cunha é a favor e conseguiu a aprovação na Câmara com um estalar de dedos. Renan se diz contra, para evitar "pedaladas" que prejudiquem os trabalhadores.

Os dois reagem menos como guerreiros e mais como meninos mimados: Renan diz que vai trancar o projeto na gaveta, Cunha ameaça retaliar segurando projetos do Senado que cheguem à Câmara e o risco é um impasse que paralise o Congresso. Onde fica o interesse público?

Renan fechou a cara para Dilma e para Cunha após a presidente cansar de esperar acordo entre eles no Ministério do Turismo e trocar o apadrinhado de Renan, Vinicius Lages, pelo de Cunha, Henrique Eduardo Alves. As políticas do setor não vão ficar nem melhores nem piores, mas a relação entre o PMDB do Senado e o da Câmara se deteriorou de vez.

Outro flanco foi o vexame do fundo partidário. Depois da campanha do vale tudo, ou do vale tudo da campanha, não só a vaca tossiu como Dilma falou na tal "pátria educadora", mas cortou bilhões da Educação e agora sancionou lei que triplica a verba dos partidos. Você, que é a opinião pública, bem sabe o que a opinião pública achou disso. E o PMDB se dividiu.

Quem passou o valor de R$ 289 milhões para R$ 868 milhões foi Jucá, do PMDB e relator do Orçamento. E quem mais reclamou foi Renan, do mesmo PMDB, criticando Dilma por optar pela "pior solução": sancionar primeiro, para agradar a base, e contingenciar depois, para tentar se recompor com o eleitorado.

Aliás, quem percebeu o desastre e acenou com o contingenciamento foi Temer, novo coordenador político. Depois ele viu, e teve de soltar nota explicando, que o fundo partidário não pode ser contingenciado. Após Dilma sancionar, o governo deve, paga e não discute.

E o PT nessa história? Bem, já tão acossado pelas crises, usou a terceirização para afinar o discurso com a CUT e ficou quietinho no caso do fundo partidário. A sigla é a que mais lucra com a triplicação das verbas e, após dois tesoureiros presos, diz não querer mais saber de doação de empresa. A conferir.

Têm-se, então, três conclusões. A primeira é que, antes de ser coordenador político de um governo com popularidade no chinelo e às turras com o Congresso, Temer tem de coordenar o próprio partido. Como amansar PP, PC do B, PDT, PTB, o não sei o quê, se as feras do PMDB continuam soltas?

A segunda é que o PT parece seguir os passos da presidente (que delegou os projetos do Planalto e da Fazenda ao PMDB) agora assiste à briga interna do aliado à distância e está mais interessado em salvar a própria pele e arranjar um discurso com algum nexo para o escândalo da Petrobrás do que propriamente dar segurança ao governo no Congresso.

A terceira é que Dilma não resolveu o essencial: faça o que fizer, ela "apanha" do PMDB e, portanto, do Congresso. Ao ceder ao da Câmara, apanha do PMDB do Senado, e vice-versa. Não poderia haver evidência maior da fragilidade da presidente.

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