Dida Sampaio / Estadão
Dida Sampaio / Estadão

Saída de Moro e troca no comando da PF têm digitais do vereador Carlos Bolsonaro

Interlocutores ouvidos pelo 'Estado' avaliam que área de inteligência, justiça e segurança pública pode ganhar rótulo de 'empresa familiar'

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2020 | 14h57

BRASÍLIA - A troca no comando da Polícia Federal e a saída do ex-juiz federal Sérgio Moro do governo nesta sexta-feira, 24, têm as digitais do vereador Carlos Bolsonaro (RJ), observam interlocutores do Palácio do Planalto. Na avaliação de auxiliares do presidente Jair Bolsonaro, a área da inteligência, da Justiça e Segurança Pública pode ganhar um rótulo de “empresa familiar”.

Ao justificar seu pedido de demissão, Moro expôs os interesses que lhe foram transmitidos pelo presidente: interferir politicamente na PF, ter acesso a relatórios de inteligência e controlar inquéritos em tramitação no Supremo Tribunal Federal (STF). O movimento brusco de Bolsonaro foi interpretado por setores do Congresso como uma pretensão do presidente de blindar a própria família, que figura em apurações que podem render reveses políticos.

O interesse do filho zero dois em ter influência sobre agentes federais ficou nítido em julho de 2019. Após a prisão de um militar integrante da comitiva presidencial na Espanha com 39 kg de cocaína, Carlos passou a criticar o Gabinete de Segurança Institucional, responsável pela segurança do pai, e a defender a transferência dessa responsabilidade para a Polícia Federal. 

Um dos nomes mais cotados para assumir a direção-geral da PF, em substituição a Maurício Valeixo, é o do chefe da Agência Brasileira de Inteligência (Abin), Alexandre Ramagem. E nele também há um elo com Carlos. Ramagem foi cogitado para chefiar o que o ex-ministro Gustavo Bebianno definiu como “Abin paralela”, estrutura que Carlos teria tentado implementar no Palácio do Planalto.

Para substituir Sérgio Moro, um dos cotados é Jorge Oliveira, da Secretaria Geral da Presidência, um dos ministros mais próximos a Bolsonaro. Embora não compartilhe o sobrenome, Oliveira tem forte ligação pessoal com os filhos do presidente. Nomeá-lo tornaria a interlocução do clã facilitada. Major da reserva da Polícia Militar do Distrito Federal, o ministro é filho de Jorge de Oliveira Francisco, falecido em 2018. Capitão do Exército, chefiou o gabinete de Bolsonaro na Câmara por anos.

Mais recentemente, o incômodo dos filhos do presidente com Sérgio Moro já não estava mais restrito aos bastidores. Com características do tradicional processo de fritura ao qual são submetidos adversários do grupo, Carlos e Eduardo Bolsonaro foram às redes sociais criticar publicamente o agora ex-ministro da Justiça. Em referência a uma proposta de comprar equipamentos eletrônicos para que presos do sistema federal pudessem conversar com familiares remotamente, em alternativa às visitas físicas durante a crise do novo coronavírus, os filhos usaram as redes sociais para atacar Moro.

"Enquanto o civil sentado sozinho em parque público é preso de maneira brutal, o bandido na cadeia recebe um tablet novinho para falar com seus familiares. Isso não se trata apenas de inversão de valores, mas é a destruição da moralidade. Vergonhoso!", dizia a mensagem compartilhada por Carlos.

Interlocutores do governo dizem que, ao topar abrir mão de um dos pilares de seu governo, Bolsonaro sinaliza estar mais preocupado com efeitos das apurações fora de seu controle do que com manter a imagem de alguém com foco no combate implacável à corrupção. Com a interferência, o presidente estaria em busca de atender interesses pessoais, como se as instituições funcionassem prioritariamente para defendê-lo.

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