Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Saída de chefes militares cria clima de apreensão entre políticos do Centrão

Militares deram 'alerta' sobre tentativa de interferência de Bolsonaro, dizem deputados

André Shalders, O Estado de S.Paulo

30 de março de 2021 | 19h27

BRASÍLIA - As demissões do ex-ministro da Defesa, Fernando Azevedo e Silva, e dos três comandantes das Forças Armadas criaram um clima de apreensão entre os políticos do chamado “Centrão” no Congresso. Na avaliação de congressistas ouvidos pelo Estadão, é preciso manter a “vigilância” diante das mudanças abruptas e a saída dos militares pode ter ocorrido diante de pedidos “antirrepublicanos” de Bolsonaro.

Fernando Azevedo e Silva foi demitido do cargo por Bolsonaro em uma reunião que durou apenas alguns minutos, na tarde desta segunda-feira, dia 29. “Preservei as Forças Armadas como instituições de Estado”, escreveu ele ao deixar o governo. Na manhã desta terça-feira, dia 30, foi a vez de Edson Leal Pujol (Exército), Ilques Barbosa Júnior (Marinha) e Antônio Carlos Bermudez (Aeronáutica) serem demitidos em uma reunião com o novo ministro da Defesa, Walter Braga Netto.

Embora os comandantes das três forças já cogitassem entregar os cargos, eles não puderam falar sobre o assunto: Braga Netto abriu o encontro anunciando a demissão dos três. Segundo disse o novo ministro, as mudanças foram necessárias para garantir o “realinhamento” das Forças ao governo. É a primeira vez que o comando dos três ramos das Forças Armadas é trocado simultaneamente.

"Fica todo mundo receoso. É um movimento sem precedentes na história, o que faz com que todo mundo fique receoso. Mas eu sou daqueles que confiam na maturidade das nossa democracia, no compromisso das Forças Armadas com a democracia e com a Constituição. (...) Ficamos receosos, existe vigilância, mas prefiro confiar na maturidade da nossa democracia e das Forças Armadas”, disse o vice-presidente da Câmara, o deputado Marcelo Ramos (PL-AM).  

Ramos disse ainda que Braga Netto deveria vir ao Congresso explicar as mudanças, para evitar qualquer mal entendido. “Se não há nada de extraordinário (na troca), acho que seria de bom tom, para passar uma mensagem de estabilidade e retirar esse receio que efetivamente existe”, disse.

"Primeiro, ficou muito claro que o ex-ministro da Defesa (Fernando Azevedo e Silva) e o comando das Forças Armadas estavam muito alinhados com o estado democrático de direito (...). Eu acho que essa demissão em massa mostra um descontentamento, ou um sinal de alerta, sobre algum pedido antirrepublicano ou inconstitucional (feito pelo presidente)”, disse o deputado Fausto Pinato (Progressistas-SP).

'É natural'

A preocupação, no entanto, não alcança todos os políticos do Centrão. Uma parte do grupo considera que as mudanças estão dentro da normalidade e não comprometem as Forças, mesmo que sejam inéditas. “A independência (do Exército, da Marinha e da Aeronáutica) está preservada”, disse o presidente de um dos principais partidos do grupo, sob anonimato.

“É natural (as mudanças). Qualquer pasta que está inserida dentro do governo cabe ao presidente (...) avaliar se é passível de mudanças. (Mudanças nessa) área da Defesa já aconteceram em outros governos”, disse o líder da bancada do PL na Câmara, deputado Wellington Roberto (PB).

“Eu, que estou aqui há 25 anos, já vi, em diversos governos, mudanças na Defesa. No governo Lula mesmo, o José Alencar, que era o vice-presidente, acumulou o cargo de ministro da Defesa”, minimizou ele.

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