Fernando Vivas/Estadão
Fernando Vivas/Estadão

Saída de Calero abre nova crise no governo Temer

Após pedir demissão, ex-ministro da Cultura acusa titular da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, de pressionar por liberação de obra de seu interesse

Tânia Monteiro, Igor Gadelha, Lu Aiko Otta e Naira Trindade, O Estado de S.Paulo

19 de novembro de 2016 | 14h27

BRASÍLIA - A saída do ministro da Cultura Marcelo Calero abriu nova crise no governo de Michel Temer. Um dos auxiliares mais próximos do presidente, o ministro-chefe da Secretaria de Governo, Geddel Vieira Lima, se tornou o pivô de questionamentos éticos que colocam o Palácio do Planalto “nas cordas”, segundo interlocutores de Temer. 

Calero pediu demissão do cargo nesta sexta-feira, 18. Em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo, ele acusou Geddel de pressionar pela liberação da construção de um edifício residencial no centro histórico de Salvador, contrariando decisão do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). 

Neste sábado, 19, o ministro admitiu ao Estado que, de fato, é dono de uma unidade no empreendimento – avaliada em ao menos R$ 2,5 milhões segundo apurou a reportagem com corretores responsáveis pelo empreendimento. O ministro negou ter usado sua influência para tentar viabilizá-lo.

Essa foi a linha da conversa telefônica que Geddel teve na manhã deste sábado com o presidente, que estava em São Paulo. A tendência é que Temer não adote nenhuma outra medida durante o fim de semana. 

Embora nos bastidores do Planalto fala-se em “guerra de versões”, a avaliação é que a denúncia de Calero é “grave”.

As afirmações do ex-ministro causaram desconforto por colocar um ministro importante no centro de uma discussão ética. Foi um fecho ruim para uma semana em que o governo lutou para evitar respingos da prisão do ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral, um membro importante do partido do presidente, o PMDB.

Comissão de Ética. Dada a gravidade dos fatos, a Comissão de Ética Pública do Palácio do Planalto vai entrar no caso. “Li com atenção o que foi publicado e, como presidente da Comissão, decidi que vou submeter o assunto ao colegiado, na segunda-feira, 21, que vai decidir se abrirá procedimento de investigação (contra o ministro) ou não e quais providências a serem tomadas”, declarou o presidente da comissão, Mauro Menezes. “Não vou fazer qualificativo e nem dar declaração porque estaria me antecipando à posição da comissão.”

A oposição quer fazer uma acareação. “Vamos chamar os dois na Câmara. Calero, para deixar mais explícito os motivos que levaram a seu pedido de demissão. E Geddel, para que explique a acusação. Eles vão ter de dar explicações ao Poder Legislativo”, afirmou a líder da minoria na Casa, deputada Jandira Feghali (PC do B-RJ). Segundo ela, a convocação deve ser pedida nas comissões de Cultura ou de Fiscalização e Controle, ambas presididas por deputados do PT. A oposição pretende pedir o afastamento de Geddel.

‘Técnico’. Escolhido para suceder Calero na Cultura, o deputado federal Roberto Freire (PPS-SP) afirmou que vai respeitar a decisão técnica do Iphan. “Vou tomar conhecimento do fato ainda. Mas antes de tomar conhecimento, o princípio que me norteia é o técnico. Se existe um órgão técnico, é para ser respeitado na suas decisões.”

O ex-ministro da Cultura foi o quinto a deixar o governo desde que Temer assumiu o Planato, em maio. Antes dele saíram Romero Jucá, do Planejamento; Fabiano Silveira, da Transparência; Henrique Alves, do Turismo e Fábio Osório, da Advocacia-Geral da União. Todos por fatos relacionados à Operação Lava Jato. 

Marcelo Calero foi procurado pela reportagem, no telefone celular e por e-mail, mas não havia respondido até a publicação desta matéria. Ele já informou ao Ministério das Relações Exteriores que vai reapresentar-se. O ex-ministro é diplomata de carreira, aprovado no concurso de 2007.

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