Ruth, das paixões serenas

Ela quis e pôde exercer com liberdade o direito de se reinventar ao sabor da curiosidade

Lourdes Sola*,

24 Julho 2008 | 10h16

Faz já um mês. Ao aceitar o convite para escrever sobre Ruth, voltou-me uma idéia fixa, uma tentação antiga que ela conhecia e que se formou quando do lançamento do Programa Comunidade Solidária. Eu achava (ainda acho) que estava na hora de atualizar o dito de Murilo Mendes: "poucos homens estão à altura de seu tempo." A idéia era (e é) que ela personificou a versão feminina desses que são tão poucos, na leitura severa do poeta mineiro. Ela também sabia que muitas e muitos de nós pensávamos assim, mas descartava com um sorriso entre maroto e irônico, toda e qualquer tentativa de entronizá-la. Acho, hoje, que havia profunda sabedoria - tão da Ruth - por trás de sua modéstia, que era genuína. Se aceitasse ser erigida em mito, tão a gosto da nossa cultura e da maneira que temos de lidar com as nossas carências, deixar-se-ia imobilizar. Deixar-se-ia prender nas imagens, nos atributos e, sobretudo, nas expectativas que se condensam e se depositam em qualquer mito. É uma forma de congelamento. Para quem é objeto dela, é uma forma de deixar-se ser - uma submissão. Nada mais alheio à maneira de ser de Ruth. Quis e pôde exercer com liberdade, o direito de se reinventar ao sabor de sua curiosidade, seu enorme sentimento do mundo e das oportunidades que o destino e "os laços fundamentais" lhe propiciaram. Guerreira na motivação, mas serena na escolha das armas, como atesta sua bela trajetória como figura pública. O culto da autonomia intelectual, foi a primeira entre suas paixões com as quais entrei em contacto direto, como aluna. Mais tarde, compreendi que alimentava em nós algo mais do que o profissionalismo com que nos iniciava na antropologia. Esse algo mais era o combustível de que se alimenta toda forma de autonomia - "a liberdade interior", na expressão dela. Já que esta não era a qualidade moral melhor distribuída entre os homens, pouco esperada nas mulheres e ignorada quando existente nelas, tratava-se de cultivá-la, sempre e onde identificasse a existência da "chispa". As pessoas, como sabemos, se apresentam por perfis. E os vários perfís de Ruth como antropóloga, educadora, formuladora de políticas sociais, do Comundade Solidária ao Bolsa Escola, foram re-apresentados com a exatidão possível e com reverência logo depois de sua morte. Como consta das análises por colegas, nos depoimentos de ex-alunas, hoje profissionais de relevo, nos editoriais e artigos de jornal. Em cerimônias discretas, quase íntimas, como na Academia Paulista de Letras. Sua reinvenção do papel de "primeira dama" também constituiu um dos pontos de convergência entre os profissionais do jornalismo, mulheres e homens. Todos deixaram para trás as pequenas escaramuças com a imprensa, a maioria delas motivada pela paixão disciplinadora que Ruth sempre investiu na separação entre público e privado. Sua trajetória como figura pública foi reconstituída em um vídeo da TV Cultura, no noite seguinte à de sua morte. O padre que oficiou a missa de sétimo dia, que a conhecera em outra oportunidade, disse que "Deus gostava dela", e detalhou os porquês. Convenceu-me. Em menos de uma semana os perfis foram se integrando e hoje, um mês depois, quando estarão unificados no Portal para o qual escrevo (ai gente, e o vídeo?) vale a reflexão: qual a razão de tanta convergência? Acho que todos fomos tocados no coração, por um coração que batia por um ideal nacional, mas que era também um globalista da solidariedade. Por isso, mais contemporâneo, à altura de seu tempo. Como quando Ruth exprimiu, categórica em um seminário: "a pobreza vai acabar no mundo", aludindo aos processos globais que apontam nessa direção. Ou quando convidada a ir à China com Fernando Henrique e instados a dizer o que queriam ver, pediu que lhes mostrassem as regiões mais pobres. A constatação de que lá "há pobreza, mas não miséria",pareceu-me, ia se convertendo no embrião de alguma nova iniciativa. Pois além de ser tema de um jantar em casa de uma amiga comum, foi seguido de outro a duas, quando ouvi um relato minucioso das experiências que a estavam mobilizando. Mais uma vez, paixão ativa em marcha, aquela que jamais deixou-se paralisar por observações depreciativas. Que teima, que encontra meios de disciplinar, sem confronto, e não se deixa enquadrar em modelos. Instada por uma amiga comum, Malak Popovic, li o belo obituário que Larry Ruthers fez para o New York Times. Nele, a mesma atitude reverente. Mas alheio à tentação de mitificar, como é de regra entre os anglo-saxões, encontrou a melhor fórmula para definir o traço de união entre a Ruth intelectual, a formuladora de políticas sociais, a que reinventou com audácia um papel social ." Tal como Eleonor Roosvelt fez nos Estados Unidos, (Ruth) formulou programas sociais através dos quais pode testar e verificar suas teorias". No site da Fundação que leva o nome da primeira-dama americana, consta a data em que Ruth ganhou o prêmio Eleonor Roosvelt, 2000, onde também consta o seguinte: "Ruth Cardoso, primeira-dama do Brasil, Humanitária". Uma mulher à altura de seu tempo. Termino cedendo à tentação de prolongar um pouco mais uma conversa com ela, datada de 1994, tomando de empréstimo a João Cabral, melhor, parafraseando o final de um de seus poemas : "Sim, como o sol sobre a cal 14 anos mais acima, A água clara não te acende Libera a luz que já tinhas." * Lourdes Sola é presidente da Associação International de Ciência Política, professora da USP, PhD em Ciência Política pela Oxford University e ex-professora da Flacso e da UCLA

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