Russomanno ganha fôlego com ajuda de PSDB e PT

Com trânsito entre petistas, candidato do PRB é estratégico para Alckmin em 2014

Julia Duailibi, de O Estado de S.Paulo,

14 de julho de 2012 | 18h10

SÃO PAULO - Em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, o candidato à Prefeitura pelo PRB, Celso Russomanno, transita com desenvoltura no mundo petista. Ajudou o Planalto nas principais votações enquanto deputado, entre 2007 e 2010. Apoiou a campanha presidencial de Dilma Rousseff (PT) e, neste ano, o seu partido ganhou o Ministério da Pesca.

 

Na eleição para o governo do Estado em 2010, atacou o PSDB e ajudou o PT a tentar forçar, em vão, um segundo turno entre o petista Aloizio Mercadante e o tucano Geraldo Alckmin. Mas agora, na disputa de 2012, foi o Palácio dos Bandeirantes que deu uma ajuda a Russomanno ao facilitar o acordo do candidato com o PTB, da base de Alckmin.

 

Com a aliança, Russomanno ganhou 1min31s no horário eleitoral na TV - sua candidatura terá mais de dois minutos -, estrutura de campanha e o advogado Luiz Flávio D’Urso como vice. Chega à disputa numa coligação de seis partidos e com a ajuda de quadros que têm relação com a Igreja Universal e a Rede Record.

 

Desde setembro, cresceu 5 pontos porcentuais nas pesquisas e hoje tem 24% das intenções de voto, segundo o Datafolha de junho, na esteira da exposição que programas na TV em três emissoras lhe garantiram até o mês passado. O fôlego nas pesquisas e a estrutura eleitoral são acompanhados com cautela pelas campanhas de Fernando Haddad (PT) e José Serra (PSDB).

 

Alianças. No começo do ano, Lula tentou amarrar o PRB a Haddad. Mas o segundo lugar nas pesquisas amadureceu o projeto Russomanno. Em junho, em busca de oxigênio para a campanha, a sigla começou a cercar o PTB. Mas os líderes do PRB avaliavam que uma aliança só sairia se Alckmin, ligado ao presidente do PTB paulista, Campos Machado, não se opusesse. Para o PT, o apoio do PTB a Russomanno também era melhor que a aliança com Serra.

 

Numa ação feita sem a ajuda do governador, serristas correram por fora para tentar levar o tempo de TV do PTB. Não adiantou. Após uma conversa com Alckmin, Campos Machado decidiu que apoiaria Russomanno.

 

Na mesma noite, quando a cúpula da campanha de Russomanno comemorava a coligação, o celular de Marcos Pereira, presidente nacional do PRB, tocou. Era Alckmin. O governador foi informado sobre o fechamento do acordo e deu “parabéns” ao PRB.

 

Nos últimos meses, o PRB, de Russomanno, aproximou-se de Alckmin, que já costura um leque de alianças para a sua reeleição. Antes de o acordo com o PTB sair, o governador recebera a direção do PRB em um almoço, onde falaram sobre a eleição de 2014. A questão municipal mal foi mencionada. Há cerca de três semanas, chamou no palácio o presidente da Record, Alexandre Raposo, e Pereira, ex-vice-presidente da emissora e coordenador da campanha de Russomanno. Mais uma vez não se falou sobre o apoio a Serra.

 

Para o PRB, a entrada do PTB na campanha de Russomanno era estratégica.

 

Presidente licenciado da OAB-SP, D’Urso tem a missão de ampliar a inserção de Russomanno entre os eleitores com maior renda e escolaridade. O candidato tem aprovação entre eleitores com até cinco salários mínimos.

 

Para o comando da campanha, ele precisa crescer entre os eleitores com maior escolaridade e maior renda. Se for bem sucedido na tarefa e mantiver os votos na periferia, avaliam, estará no segundo turno. O desafio é evitar o desempenho de 2010, quando Russomanno começou com 11% nas pesquisas e terminou com 5% nas urnas. Na cidade, teve 433.481 ou 6,68% dos votos.

 

A campanha de Russomanno é o eixo principal da estratégia de crescimento do PRB no País. Em 2008, o partido, criado três anos antes, elegeu 54 prefeitos. Agora lançará cerca de 300, e a meta é eleger, pelo menos, 100.

 

Com quadros ligados à Record e à Universal, como Marcos Pereira e o ministro Marcelo Crivella (Pesca), o PRB é apontado por adversários como braço político do bispo Edir Macedo. No núcleo da campanha, o presidente estadual do PRB, Vinícius Carvalho, foi presidente da Record no Rio. O tesoureiro Aildo Rodrigues foi funcionário do Banco Renner, que teve ações compradas pela Record em 2009.

 

Pereira nega que a legenda sirva ao propósito e afirma que não há intromissão da igreja nem da emissora no PRB, que preside desde 2011. “Isso é um rótulo que a mídia quer nos impor. Queremos desmistificar isso”, afirma. Principal nome na campanha de Russomanno, ele cita números. “Dos 780 vereadores do partido em todo País, apenas 70 são evangélicos. E só 55 da Universal”, diz. Ele destaca que o vice-presidente José Alencar, morto em 2011, foi fundador da sigla.

 

Pereira é quem construiu a campanha de Russomanno. No final do primeiro semestre de 2011, o encontrou em Brasília, na fila de embarque de um voo para São Paulo. Fez uma sondagem sobre a ida ao PRB e encontrou receptividade. Em setembro, foi divulgada uma pesquisa que colocava

Russomanno em primeiro lugar na corrida pela

 

Prefeitura. Pereira resolveu procurar o deputado e insistir no convite, dessa vez com a promessa de que daria a legenda para ele disputar a eleição deste ano. Àquela altura, Russomanno queria deixar o PP, de Paulo Maluf, com quem se desentendera em 2010 e a quem acusara de ter usado o horário eleitoral para promover sua campanha de deputado.

 

Russomanno aceitou o convite. Três meses depois, em dezembro, estreou o quadro Patrulha do Consumidor na Rede Record.

 

Nas pesquisas feitas pelo PRB, PSDB e PT, eleitores relacionam o candidato a valores como justiça. Avaliam, no entanto, que ele é ainda cru para exercer cargo no Executivo. Outra característica é que o seu eleitor avalia bem os governos Lula e Dilma. Mas, se em 2010, Russomanno deu uma mãozinha para o PT e ajudou o partido na tarefa de criticar Alckmin, agora o cenário é diferente.

 

Mesmo se não for para o segundo turno, a candidatura de Russomanno terá cumprido uma missão na eleição, a de fortalecimento e de projeção do PRB.

Questionado sobre os políticos que pertencem aos quadros da legenda, Pereira diz: “Não temos governador”. Depois, sorri e completa: “Por enquanto”. 

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