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Eliane Cantanhêde
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Ruído e constrangimento

É melhor buscar colegiados, consenso e segurança antes do que depois de falar

Eliane Cantanhêde, O Estado de S.Paulo

05 de março de 2019 | 03h00

A inteligência de conselhos, debates e reuniões é ouvir ideias novas, contrapor visões diferentes, abrir alas ao contraditório e buscar consensos para a melhor decisão. Por definição, eles são incompatíveis com o pensamento único – que é o oposto da inteligência. Então, por que o governo desidrata os conselhos e desconvida uma cientista política respeitada para um deles?

Uma das qualidades do presidente Jair Bolsonaro – que Michel Temer tinha e Dilma Rousseff, definitivamente, não tinha – é saber ouvir e ter a humildade, ou a grandeza, de mudar de opinião. O problema é que ele inverte o processo: em vez de ouvir, debater (e ampliar o leque de opiniões) antes de chegar a um consenso, ele anuncia e depois vai ouvir, debater e chegar a um consenso.

Isso gera ruídos e constrangimentos. Nesses dois meses de governo, eles não foram poucos. Aliás, já começaram na transição, com o anúncio, e depois o “desanúncio”, da fusão dos ministérios da Agricultura e do Meio Ambiente. Ministros e assessores primeiro intuíram, e depois concluíram, que é preciso muita atenção ao que o presidente diz ou divulga pelas redes sociais, para poder apagar os incêndios rapidamente.

Quem primeiro teve a coragem de corrigir Bolsonaro em público, para neutralizar reações negativas, foi o secretário especial da Receita Federal, Marcos Cintra, que negou a intenção, anunciada informalmente pelo presidente, de aumentar o IOF e mexer no IR.

Na mesma ocasião, o chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, teve de fazer um contorcionismo verbal para corrigir a informação do presidente de que a idade mínima na reforma da Previdência seria de 57 anos para mulheres e 62 para homens. Segundo Onyx, a ideia tinha “muita força”, mas a proposta ainda não estava fechada. E não estava mesmo, como se viu no anúncio oficial de 62 e 65 anos.

O mais desembaraçado para desmentir uma afirmação de Bolsonaro foi o ministro do GSI, Augusto Heleno, um general da reserva que joga vôlei e tem jogo de cintura. Depois de Bolsonaro dizer, e o chanceler Ernesto Araújo confirmar, que o Brasil poderia ceder território para uma base militar americana, Heleno deu uma entrevista definitiva: “Fizeram um auê por nada. Não tem nada disso”. Nunca mais se falou em base militar.

O último desmentido partiu do vice-presidente Hamilton Mourão, cada dia mais político, mais cuidadoso. Bolsonaro tinha admitido reduzir a idade mínima das mulheres para 60 anos na reforma e desistir de pagar só R$ 400 para miseráveis. A área econômica reagiu, o mercado sacolejou e lá se foi o vice reduzir tudo a um “mal-entendido”.

Em vez de enxugar ou extinguir conselhos, o presidente anda precisando do contrário: um conselho para monitorar suas manifestações públicas, seja sobre bases, seja sobre a “nova Previdência”, seja sobre imposto, seja sobre o que for. Como já disse Onyx Lorenzoni, qualquer coisa que o presidente disser, ou tuitar, tem “muita força”. Logo, toda prudência é necessária, todo cuidado é pouco.

Louve-se, novamente, a capacidade de Bolsonaro de recuar quando necessário, mas buscar consensos e segurança antes de falar, e não depois, evita dissabores e constrangimentos. Em outras palavras, “é melhor prevenir do que remediar”.

Educação. Segundo o presidente, pelo Twitter, o Brasil gasta mais em Educação em relação ao PIB do que a média de países desenvolvidos (cerca de R$ 130 bilhões em 2016) e ocupa as últimas posições do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). Um escândalo! Mas isso não se combate com ideologia, teologia e fantasmas. O setor precisa mesmo é de administração: planejamento, ações, qualificação e, eventualmente, punições.

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