Rubens Barbosa vê ideologização na política externa

Ex-embaixador diz que visão de partido tem prevalecido sobre interesse nacional.

Denize Bacoccina, BBC

14 de março de 2008 | 08h00

Embaixador brasileiro em Washington durante o goevrno Fernando henrique, Rubens Barbosa disse em entrevista à BBC Brasil que falta "coerência" à política do Brasil para a América do Sul e que ela sofre com a "ideologização das decisões".Ele diz que o Brasil passou a aceitar, em nome da integração, demandas que são bilaterais e não regionais, como é o caso do pleito do Paraguai por um aumento do preço da energia vendida ao Brasil. "Cada país está defendendo o seu interesse e o Brasil está procurando resolver o problema dos outros, e, em vários casos, não olhando para o seu interesse nacional", afirmou Barbosa.O ex-embaixador, que é presidente da consultoria Rubens Barbosa & Associados e diretor da Fiesp, diz acreditar que a integração regional interessa ao Brasil, mas que o país tende a ganhar importância no cenário internacional mais amplo e se descolar da região. BBC Brasil - Num artigo na época da campanha eleitoral, o senhor disse que Geraldo Alckmin retomaria uma política externa consensual e suprapartidária, tendo em vista o interesse nacional. O senhor acha que a atual política externa não atende ao interesse nacional?Rubens Barbosa - Houve um trade off, uma negociação política em que o PT, para aceitar a política econômica neoliberal, continuação do governo anterior, ficou com a política externa, que na minha visão padece de dois pecados: a ideologização das decisões e a politização das negociações comerciais. E com a ideologização se tem uma visão de mundo que é a visão de um partido, não é a tradicional brasileira.BBC Brasil - E qual a principal diferença?Barbosa - Na atual política externa não há grandes inovações, há continuidade em muitos aspectos. Quando eles dizem que a prioridade é o Mercosul, a América do Sul, o Conselho de Segurança, a Rodada de Doha, isso foi prioridade em todos os governos. O que mudou foi a ênfase e a maneira como o atual governo enfoca essas prioridades. Por exemplo, na relação com os países desenvolvidos. Por uma questão ideológica, o Itamaraty dá hoje prioridade aos países em desenvolvimento, à relação sul-sul, e isso reflete uma visão de centro-periferia, de pobre-rico. Por coincidência, como a economia está em grande expansão no mundo, aumentou a relação comercial com os países em desenvolvimento. Mas isso não é por causa da política brasileira, é pela circunstância histórica que atravessamos. O que ocorreu com esta falta de ênfase na relação com os países desenvolvidos, é que as exportações para os Estados Unidos estão caindo. Hoje representa cerca de 15%, quando já foi mais de 20%.BBC Brasil - Mas isso significa que o Brasil está diversificando as exportações. Não tem um lado bom?Barbosa - O problema é que estamos vendendo mais produtos agrícolas para outros mercados, sobretudos os mercados asiáticos. Mas não estamos vendendo máquina e equipamento. O PT vê as disparidades regionais como um problema político. Então o Brasil, como é o maior país da região, tem que ajudar, tem que ter uma política generosa em relação à Bolívia, à Venezuela, ao Equador, ao Paraguai. Por uma distorção ideológica e política o Brasil está aceitando as políticas e ações que eles estão pondo em prática. Morales questionou o acordo do gás, expropriou duas refinarias da Petrobras na Bolívia. No Paraguai estão querendo rever o Tratado de Itaipu, que é uma questão de segurança nacional brasileira. Ao pensar ideologicamente, você lê erradamente o que está acontecendo aqui na região. Cada país está defendendo o seu interesse e o Brasil está procurando resolver o problema dos outros, e, em vários casos, não olhando para o seu interesse nacional.BBC Brasil - O Brasil está atuando como líder?Barbosa - A liderança não se proclama, se exerce. O Brasil proclamou a liderança, mas não a exerce. Os Estados Unidos não se proclamam líder, eles exercem, eles mudam a agenda, eles decidem invadir o Iraque, eles criaram a doutrina de segurança nacional, eles tomam as decisões e os outros, em geral, ou se calam ou se afastam, porque não tem saída. O Brasil não sabe exercer a liderança, porque nós estamos a reboque dos acontecimentos na região.BBC Brasil - Não faz parte do papel de líder este tipo de atitude generosa?Barbosa - Não, não faz parte do líder não. Quando desapropriaram a Ocidental Petroleum, os Estados Unidos protestaram. Agora, depois de a Venezuela ter expropriado a empresa americana, a Corte americana embargou recursos da Venezuela. O Brasil tinha que ter uma reação mais forte, pelo menos protestando. No Paraguai o Brasil investiu bilhões de dólares para fazer Itaipu. O governo Lula aceitou duas ou três modificações que beneficiaram muito o Paraguai. Agora querem mudar até o tratado. Uma coisa é a defesa do interesse nacional. Outra coisa é a generosidade partidária.BBC Brasil - Exercer a liderança não implica também num custo? O Brasil estaria disposto, o brasileiro quer a integração?Barbosa - (O presidente) Lula, nos últimos meses, competindo com o (presidente Hugo) Chávez passou a distribuir recursos financeiros, perdoar dívidas e outras benesses. Prometeu US$ 1 bilhão para a Bolívia e oficializou o perdão da dívida. Está dando financiamento para o Paraguai. Isso, eu acho correto. É necessário fazer isso se você quer ter influência. BBC Brasil - Num artigo recente o senhor diz que os mecanismos de integração estão esgotados. O que o Brasil deveria fazer para promover a integração?Barbosa - Eu acho que no momento o Brasil deveria aprofundar os acordos comerciais regionais. Alguns acordos estão perfurados por acordos de livre comércio com outros países, como os Estados Unidos. Por exemplo, o Chile, o Peru, a Colômbia, já assinaram acordo com os americanos. Eles deram concessões aos americanos muito maiores do que deram ao Brasil. Então vamos negociar com esses países. Aí sim você pode ser generoso. Eles abrem o mercado lá e a gente abre aqui. Mas abrir aqui, com poucas concessões do outro lado, não sei onde está o nosso interesse. Outra coisa é o Brasil efetivamente liderar um processo de ampliação da integração física.BBC Brasil - Interessa ao Brasil a integração ou o país deveria pensar num outro modelo, menos ambicioso?Barbosa - Eu acho que interessa, porque nós somos 300 e tantos milhões na região. Acho que o Brasil está ficando maior do que o Mercosul e maior do que a região. É claro que é preciso fazer um esforço para ampliar as relações com os países em desenvolvimento. Mas hoje a projeção externa do Brasil é muito grande e a tendência é o Brasil se descolar da América do Sul. Acho que o Brasil em 10, 15 anos, vai estar numa posição muito distante de todos os países da região. A América do Sul, em comparação com outras regiões, vai perder a importância, e o Brasil vai emergir como uma potência econômica global. Isso vai ter profundas consequências aqui para a região. Aí vai aumentar a responsabilidade do Brasil e a necessidade de o Brasil ter uma política coerente para a região. Em outras palavras, na minha visão, o Brasil está sem política coerente para a região.BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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