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Roqueiro que gravou para Campos diz ter dúvidas sobre apoiar Marina

Vocalista do Capital Inicial fala que não vai transferir apoio automaticamente

JULIO MARIA, O Estado de S.Paulo

20 de agosto de 2014 | 02h03

Dinho Ouro Preto, vocalista da banda Capital Inicial, gravou um depoimento para o programa de Eduardo Campos na TV. Estava disposto até a subir no palanque do ex-governador de Pernambuco. Há seis meses, Dinho pediu um encontro. Foi à casa de Campos e saiu convicto. Após dez anos anulando votos, que, antes do mensalão (esquema de compra de apoio parlamentar no governo Lula revelado em 2005), iam para o PT, ele voltara a ter um candidato à Presidência.

Agora, com a trágica morte do político, diz que não vai "transferir automaticamente" seu apoio a Marina Silva, pois algumas coisas na ex-ministra - como a religiosidade e as posições conservadoras sobre os direitos gays - o incomodam.

Aos 50 anos, Dinho, que lança o politizado disco Viva a Revolução, tem uma das maiores bases de fãs jovens entre roqueiros surgidos na década de 80.

Ele falou ao Estado por telefone, de sua casa, em São Paulo. Leia trechos da entrevista:

O que o levou a ter um encontro com Eduardo Campos?

Fui eleitor do PT na minha juventude, mas passei a anular o voto depois do mensalão. Sempre me identifiquei com uma postura mais à direita do partido, menos radical. Quando conheci Eduardo, percebi se tratar de um líder com um pensamento com o qual me identificava. Pedi para encontrá-lo antes de um show no Recife, fui à sua casa e fiquei lá por três horas.

Como foi a conversa?

Falamos de Dilma (Rousseff, presidente candidata à reeleição) a Lula, de Aécio (Neves, candidato do PSDB à Presidência) a meio ambiente, economia, cultura. Cheguei com grande ceticismo com relação às eleições e ele ficou insistindo para que eu não continuasse assim, que ele acreditava que as manifestações (do ano passado) eram reflexo da falta de representatividade dos mais novos. Havia uma paixão pelo Brasil com uma capacidade de inspirar pessoas. A melhor palavra talvez seja carismático. Saí de lá totalmente convencido.

E então você votaria neste ano.

Cara, eu ia fazer a campanha dele! Vieram gravar um depoimento meu sobre ele, devem exibir nesta semana no horário eleitoral do PSB.

Você agora apoia Marina Silva (substituta de Campos)?

Não, não, não. Não é assim. Não tenho como transferir automaticamente meu apoio, preciso saber o que ela tem a dizer. Eu percebia nele uma linha de virtudes, via um ponto entre essa dicotomia que somos obrigados a engolir, de PT versus PSDB. Muito diferente do Aécio, em quem vejo um discurso só para o mercado e que pouco fala em ações sociais. Ao mesmo tempo, creio que não podemos ter um governante que desorganize a economia como faz Dilma. Eu queria alguém que pensasse no crescimento econômico combinado com justiça social, e eu via isso no Eduardo.

Sua postura era personalizada.

Sim. Não sei o que Marina vai manter e o que vai transformar. Ainda tem coisas que me incomodam demais na candidata. A questão da religiosidade, as posturas relacionadas aos costumes, os direitos gays, questões relacionadas às drogas. Eu sou agnóstico, e ouvi algo sobre obrigação de ensino religioso nas escolas, o que acho complicado. Quero saber dos limites de seu ambientalismo. Num país onde uma das maiores fontes de divisas são as commodities, como fica se tivermos uma ambientalista jihadista?

Você se lembra com incômodo das campanhas que fez para o PT antes do mensalão?

Não, eu acreditei e acredito que a distribuição de renda é urgente. O que me incomoda é ver todos do PT vangloriando-se do que fizeram enquanto temos um país enterrado.

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