Romaria cobra mudanças na administração da Base de Alcântara

Declarações de apoio ao presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, e cobranças por mudanças profundas a partir de 1º de janeiro, data prevista para posse do presidente, marcaram a 1ª Romaria dos Atingidos, em Alcântara, no Maranhão. O evento, que reuniu cerca de três mil pessoas, teve a participação de nomes conhecidos da esquerda brasileira, como o senador eleito e ex-governador do Amapá, João Capiberibe (PSB), o coordenador do MST, João Pedro Stédile, o candidato derrotado à Presidência pelo PSTU, José Maria Almeida, e o presidente da Comissão Pastoral da Terra, D. Tomás Balduíno.No discurso que fez diante de uma das entradas da Base de Alcântara, Stédile mandou um recado ao diretor do Centro de Lançamento de Alcântara (CLA), coronel Jorge Pagés. Ele disse que o novo governo vai mudar e o comando da Aeronáutica também, o que possivelmente resultará na troca da direção da base.Stédile acredita numa solução, durante o governo Lula, para os atingidos pela criação da Base de Alcântara e pediu aos moradores da região que permaneçam mobilizados para garantir as mudanças esperadas. "Vamos para a rua reivindicar e arrancar as mudanças na marra", afirmou.Stédile negou que o MST tenha a intenção de ocupar a Base de Alcântara. Ele atribuiu o boato a "setores da imprensa" que estariam interessados em provocar indisposição entre o movimento e Lula.Com a preocupação de evitar conflito, os participantes da romaria seguiram tranqüilamente até o encerramento, na entrada da base. Eles entregaram uma pauta de reivindicações elaborada pelo Movimento dos Atingidos pela Base de Alcântara (MABE) ao coronel. A entrega do documento só ocorreu após o fim da manifestação, quando os ônibus da organização do evento já haviam embarcado os romeiros de volta para Alcântara.Durante os discursos, a organização do evento pediu diversas vezes aos manifestantes que evitassem se aproximar da barreira de cerca de 100 militares que protegiam o local. O coronel Pagés negou que a vigilância tenha sido reforçada com militares de Recife e Belém e classificou a convocação de todo o efetivo para o plantão no final de semana como "zelo normal".Um helicóptero da Aeronáutica sobrevoou Alcântara durante todo o sábado e acompanhou de longe a marcha hoje. Mas o coronel disse que a medida não foi para intimidar romeiros. Segundo ele, os sobrevôos são parte da rotina que antecede os lançamentos na base.No próximo dia 23 de novembro, um foguete, com experimentos de universidades brasileiras, será lançado. "Tem que ficar claro que não existe animosidade com a comunidade de Alcântara", afirmou Pagés.A 1ª Romaria dos Atingidos foi um ato de protesto contra as condições dos assentamentos de moradores retirados da área destinada à Base Espacial, contra o acordo de aluguel de instalações para os Estados Unidos e contra a participação do Brasil na Área de Livre Comércio das Américas (Alca).O evento começou às 21 horas de ontem com uma vigília que varou a madrugada na Praça do Pelourinho, no centro da cidade. Às 6 horas de hoje, houve a celebração de uma missa campal pelo bispo de Pinheiro, dom Ricardo Pedro Paglia, e pelos párocos de Alcântara, padre René, e de Bequimão, padre Reinaldo. Depois, aconteceu a caminhada de 7 quilômetros até a entrada da base. O ato foi organizado pelo Movimento dos Atingidos pela Base de Alcântara, com apoio da CPT e MST. Cerca de 310 famílias foram remanejadas da área ocupada pela base e reassentadas em agrovilas na região. Mas os moradores reclamam que na nova área as terras são ruins para a agricultura e longe demais do litoral para os pescadores. As duas atividades eram as principais fontes de renda das famílias. Os moradores também querem autorização para construir novas casas para as gerações que crescerem nas agrovilas.

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