Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

O que tem que ser criticada é a má política, não a 'velha', diz Roberto Freire

Há quase 30 anos presidente de partido, ex-deputado fala em renovação e diz que já fez contatos com Luciano Huck por candidatura em 2022 pelo Cidadania

Entrevista com

Roberto Freire, presidente nacional do Cidadania

Matheus Lara, O Estado de S.Paulo

09 de janeiro de 2020 | 05h00

Aos 77 anos e há quase 30 na presidência de um partido político, o ex-deputado constituinte Roberto Freire, hoje sem mandato e dedicado exclusivamente ao comando do Cidadania (ex-PPS), se vê na vanguarda da renovação política no País. Um paradoxo do qual ele próprio ri e que tenta explicar: para ele, não há que se falar em "velha" ou "nova" política, mas sim de "boa" ou "má".

Ao Estado, Freire fala sobre o que entende ser esta mudança: uma estratégia que passa por aproximar seu partido dos chamados movimentos cívicos, de formação e renovação política, como o RenovaBR, Agora!, Acredito e Livres, que têm atraído e alavancado novas lideranças no País. Mas ele reconhece que se adaptar ao novo momento da política é uma questão de sobrevivência para os partidos. "Existe hoje uma nova formação política que não vem dos partidos tradicionais. O partido que queira continuar existindo tem que se adaptar ao que acontece na sociedade", afirma.

Em 2019, o Cidadania definiu seu novo estatuto ouvindo esses grupos. O partido definiu que não fechará mais questão em pautas no Congresso, por exemplo - uma forma de não constranger parlamentares que venham desses movimentos e que eventualmente tenha posição diferente da do partido. Esse tipo de tensão aconteceu este ano (2019) na reforma da Previdência, quando deputados como Tabata Amaral (PDT) e Felipe Rigoni (PSB) contrariaram suas siglas e agora respondem internamente.

Freire sonha em ter um dos principais nomes ligados a estes movimentos, o apresentador Luciano Huck, como candidato do Cidadania à Presidência em 2022, mas diz não querer apressar as coisas. "Não tem que precipitar nada", afirma. Veja os principais trechos da conversa.

Confira, abaixo, a entrevista:

Por que o Cidadania se abriu para os chamados movimentos cívicos?

São movimentos espontâneos formados por jovens que se interessavam por política e começaram a debater. Como no Brasil, para participar do processo político, há determinação legal de que só se pode fazer isso através de partidos, nós passamos a olhar para essa movimentação e tentar com eles dialogar para integrá-los. Existe hoje uma nova formação política que não vem dos partidos tradicionais. O partido que queira continuar existindo tem que se adaptar ao que acontece na sociedade.

Como evitar desencontro de pautas entre o que lideranças desses movimentos querem e o que o partido quer?

Não tem problema o desencontro de pautas. Eles têm a autonomia deles. O movimento não deixa de existir porque seus membros estão filiados ao partido.

Isso não coloca as bandeiras que o partido defende em 2º plano?

Não. O partido continua tendo suas bandeiras. Respeitará aqueles que vêm dos movimentos e seus filiados antigos. O partido continuará tomando posição (apesar de não fechar questão, que é a formalidade de orientação para voto da bancada no Congresso). O fato de alguém não votar com a posição do partido será respeitado.

Onde o Cidadania quer chegar com isso?

O mundo já não comporta mais paradigmas do passado. Estamos vivendo num processo em que instituições que foram fundamentais na sociedade industrial não são mais instituições que respondem às necessidades do novo mundo. Essa nova sociedade muda a política e não adianta imaginar que a atuação política vai ser a mesma. O Cidadania quer ser contemporâneo desse futuro. Não quer ficar perdido lá atrás. Queremos recuperar o diálogo entre sociais-democratas e liberais.

O senhor está há quase três décadas na presidência do partido. Como falar em renovação? Parece um paradoxo.

Sou responsável por liderar as mudanças no partido. Tem outros (partidos) que mudam todo ano e não renovam nada. Estou mostrando a você que quem está tendo diálogos com esses setores (movimentos) somos nós. Você pode até dizer que é um paradoxo (risos), mas na realidade, apesar de estar há tanto tempo, esse processo de mudança está sendo feito por nós. Eu estou comandando esse processo de mudança desde o PCB (de onde se originou o antigo PPS, que virou Cidadania em 2019). Não estou me acomodando, não.

A chamada 'velha política' tem sido bastante criticada nos últimos anos...

"Velha política"... O que tem que ser criticada é a má política. Não é a velha ou a nova, isso é um conceito equivocado. Tem que saber se é bom e acabou. A má política pode ser nova ou velha. Tem novos políticos que praticam a péssima política.

Mas o senhor ficou sem mandato justamente nesta onda de ataques à velha política...

Eu não tive voto. Respeito e não discuto a escolha do cidadão. Posso ter a visão de que foi feita uma escolha política equivocada, posso discordar, mas respeito. A política continua presente na minha vida. Trabalho em tempo integral à presidência do partido em Brasília.

O senhor pretende ser candidato de novo?

Não estou pensando nisso, não. Depois de um rechaço desse, tem que analisar bem se tem que voltar ou se encerrou o tempo de atividade parlamentar. Não me aposentei da política. Das urnas, também não, mas não está no meu horizonte.  Estou num projeto concreto com o Cidadania de tentar que sabe articular uma alternativa democrática para 2022 para disputar a Presidência.

O senhor tem falado do apresentador Luciano Huck. Acha que ele será candidato pelo Cidadania?

Nao sei nem se ele vai ser candidato. Isso está no horizonte dele. Mas ele não decidiu ainda (por qual partido). Estamos muito distantes da eleição. Não tem que precipitar coisa alguma. Quem precipitou isso foi (o presidente) Jair Bolsonaro falando de reeleição em menos de um ano de governo. Tem muito tempo ainda. Não tem que ter pressa.

Mas o convite está feito a ele, certo?

Claro, há muito tempo já tivemos conversas.

Acha que ele teria chance nesse cenário polarizado? Qual o diferencial dele?

Não tem cenário polarizado. Tem extremos.

O senhor se refere a extremos que chegaram ao segundo turno em 2018, imagino. Huck tem chance nesse cenário de 'extremos'?

Não era na eleição. Bolsonaro se transformou em extremo depois que ele ganhou. Bolsonaro não foi eleito majoritariamente com voto da extrema-direita. Não foi isso. Teve voto de setores democráticos em Bolsonaro não porque era o grande candidato, mas por ser uma opção de 2º turno. Era um ou outro. A rejeição ao PT e não um apoio majoritário ao Bolsonaro.

Mas e Huck? Não acha que ele está demorando para se filiar a um partido e aparecer como pré-candidato?

Aparecer mais do que ele aparece? Ele é uma celebridade. Tem três anos ainda. E temos a eleição de 2020. Precisamos ver São Paulo, Rio, Campinas, cidades. Temos que estar preocupados com as cidades. É uma etapa. Vou tentar firmar nosso projeto político olhando para nossas cidades.

Falando em cidades, quem é pré-candidato a prefeito pelo Cidadania em capitais?

Queremos lançar pelo menos 15 candidatos em capitais. São pré-candidatos (os deputados federais) Marcelo Calero no Rio, Daniel Coelho em Recife, (e os estaduais) João Vitor Xavier em Belo Horizonte e Any Ortiz em Porto Alegre.

Muito se falou da fusão do partido com outros. Ainda existe essa possibilidade?

Não antes da eleição de 2020. Não sei depois. O Cidadania não exclui discussões com dois partidos: Rede e PV.

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