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Rito de passagem

O presidente do PT, Rui Falcão, não poderia ter sido mais claro sobre os planos do partido para um segundo mandato da presidente Dilma Rousseff, caso vença as eleições, em longa entrevista publicada nesta segunda-feira, no jornal Valor Econômico.

Dora Kramer, O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2014 | 02h02

Falcão elucida algumas questões que a candidata à reeleição não pode abordar com tanta franqueza por razões de estratégia eleitoral. Por exemplo, o discurso sobre a "mudança" para fazer frente ao anseio da maioria do eleitorado. Falcão afirma que os "pilares" continuarão exatamente os mesmos.

E o compromisso primeiro é "com a própria maneira como o governo tem tratado o País, com retidão, com transparência, (compromisso) com crescimento econômico, dentro daqueles pilares que a Dilma disse que não vai mudar". Em seguida cita para o segundo mandato exatamente o mesmo cardápio do primeiro.

Dito isso Falcão esclarece a razão pela qual é necessário que a atual presidente governe o Brasil por mais quatro anos: "Precisamos eleger a Dilma para o Lula voltar em 2018. Isso significa que, ela reeleita, começa o ciclo de debate, de planejamento, para que o nosso projeto tenha continuidade com o retorno de Lula, que é a maior segurança eleitoral de que o projeto vai continuar".

Ou seja, não são mais as qualidades gerenciais da presidente, como em 2010, que justificam sua escolha pelo eleitorado, mas o interesse do PT em segurar o lugar no Palácio do Planalto a fim de garantir a posição vantajosa dos ocupantes do poder na campanha presidencial de 2018.

A reeleição de Dilma Rousseff fica, assim, reduzida a um mero rito de passagem para um segundo mandato que, caso reeleita, seria posto a serviço da volta do ex-presidente Lula. É o que informa Rui Falcão.

E vai além antecipando que Lula terá presença de destaque nesse novo período. Muito mais acentuada do que a participação no primeiro mandato durante o qual, de acordo com Rui Falcão houve "um afastamento deliberado" a fim de que Dilma pudesse ter brilho próprio e que o antecessor não a ofuscasse com a sua liderança.

O presidente do PT não explica como seria esse "protagonismo", mas ao que se depreende de suas palavras, já não haveria preocupação com a sobreposição de comandos. Terá querido dizer que o ex-presidente governará junto? Ou pretendido acenar ao eleitorado, aos aliados e aos grupos de interesse que não gostam do jeito de Dilma que podem votar sossegados, pois desta vez Lula será mais que um fiador?

Só nesse ponto Falcão deixou dúvida. Ele foi bastante transparente também sobre a necessidade de se providenciar alguns ajustes na maneira de conduzir as políticas de governo de modo a extrair delas um melhor aproveitamento eleitoral.

Perguntado sobre qual foi o maior erro do governo Dilma, Rui Falcão apontou a falta de mais diálogo com a chamada nova classe média, aquela beneficiada pelas políticas assistenciais e de incentivos ao crédito e ao consumo.

"Era preciso ter uma identificação mais rápida do que estava acontecendo e um direcionamento mais rápido para a disputa política, para o esclarecimento sobre as políticas públicas para que tivesse uma base maior de apoio desses setores."

Em suma, o presidente do PT lamenta que a clientela tão tenha sido suficiente e competentemente fidelizada ao ponto de fazer uma ligação direta entre os benefícios recebidos, o sentimento de gratidão e a devolução em forma de votos e devoção eterna.

Defende que se desfaça na cabeça desse pessoal a ideia de que a ascensão se deu por méritos próprios e sobre isso cita Lula. "Ele pergunta assim: se fosse só esforço pessoal, porque não ocorreu antes no governo Fernando Henrique?"

O conceito do mérito próprio, na opinião de Falcão "estimula a fragmentação, o individualismo". Faltou acrescentar: dificulta o populismo, o clientelismo.

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