MARCOS DE PAULA/ESTADÃO
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Risco é novo governador do Rio ceder à velha política, diz cientista político

Professor da PUC-Rio, Ricardo Ismael diz que prisão de Pezão representa o fim do ciclo do MDB, que está no Estado desde 2007

Vinicius Neder, O Estado de S.Paulo

29 Novembro 2018 | 18h29

RIO - A prisão do governador do Rio, Luiz Fernando Pezão, na manhã desta quinta-feira, 29, representa o fim do ciclo político do MDB no poder fluminense, cujos líderes foram atingidos em cheio pelas investigações da Operação Lava Jato. A avaliação é do cientista político Ricardo Ismael, professor da PUC-Rio, em entrevista ao Estado.

Além do ex-governador Sérgio Cabral, foram investigados e presos secretários do governo, a cúpula da Assembleia Legislativa (Alerj), incluindo o ex-presidente Jorge Picciani, conselheiros do Tribunal de Contas do Estado (TCE) e um ex-procurador-geral do Ministério Público Estadual. No período, passaram pela prisão ou estão presos todos os eleitos para o governo estadual desde 1998.

Qual é o significado político da prisão de Pezão?

É uma coisa inusitada, um governador no exercício do mandato, mesmo que seja no fim dele, ser preso pela Polícia Federal (PF). É o fim do ciclo do PMDB, agora MDB, no governo do Estado. É o capítulo final desse período.

Como esse fim de ciclo de relaciona com a transição para o novo governo?

Aumentou a responsabilidade do (governador eleito, Wilson) Witzel (PSC). Primeiro, com relação à própria burocracia do Estado, ou seja, é fundamental redobrar os cuidados na indicação do novo secretariado. A população está muito atenta. Se houver novos casos de corrupção, a credibilidade do governo vai ser abalada. Além disso, o novo governador vem com o desafio de tentar contribuir para estabelecer novos mecanismos de controle e até recuperar os antigos, que não funcionaram.

As eleições resultaram em nomes novos no governo e no Legislativo. O que podemos esperar?

São três os recados da população (nas eleições). Ela não aceita mais aquele financiamento eleitoral que dá início à relação promíscua entre políticos e o setor privado. Ela não aceita mais que o apoio que o governador venha a receber do Legislativo seja em contrapartida a entregar áreas do Estado. E, finalmente, a população, que tem uma carência grande de serviços sociais, não aguenta ficar todo dia vendo mais escândalos. Isso são desafios muito grandes. Não dá para responder se a nova elite política que ascendeu está preparada e conseguirá fazer isso. A população fez algumas apostas, aqui no Rio, em Minas Gerais (com a eleição de Romeu Zema, do Partido Novo). Só o tempo vai dizer se essas apostas vão corresponder.

Esses políticos ainda não foram testados...

Acho que a população sabe disso. A população apostou numa coisa diferente, porque já não aguentava mais. A população sabe que não há certeza que isso vai dar certo. Os problemas são muitos e essa mudança de cultura política vai enfrentar resistências.

Qual é o principal risco para o próximo governo no Rio?

O principal risco é se, quando houver um confronto entre a política tradicional e a parte do governo que deseja caminhar numa outra direção, o governador ceder por conta de apoios políticos. Ele terá que estar preparado para enfrentar possíveis resistências de setores patrimonialistas que, claro, não vão querer mudar o padrão. Se o governador optar pela política tradicional, vai perder rapidamente a credibilidade. A sociedade não deu um cheque em branco, não está dando um apoio incondicional, está dando um apoio condicionado, de acordo com o que foi prometido. Se isso for descumprido, pode perder rapidamente a credibilidade e a popularidade.

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