Risco de 3º mandato de Lula é real, diz Leôncio Martins

Para cientista político, negativas não descartam hipótese: 'Lula já disse que é uma metamorfose ambulante'

Gisele Silva, do estadao.com.br,

01 de abril de 2008 | 22h17

O cientista político Leôncio Martins Rodrigues, estudioso de partidos políticos e questões sindicais, acredita que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentará um terceiro mandato, apesar das reiteradas negativas do Planalto e do próprio Lula. O tema voltou a ser discutido após o vice-presidente, José Alencar, ter dito nesta terça-feira, 1º, em entrevista à Rádio Bandeirantes que está convencido de que "o povo brasileiro deseja que o Lula fique por mais tempo no poder".     Veja também:    TV ESTADÃO: 'Terceiro mandato é tentação autoritária', diz cientista político da USP   ESPECIAL: A partir de José Sarney, quanto cada presidente ficou no poder    FÓRUM: Você concorda com a declaração de José Alencar?  Ouça declaração de Alencar    Leôncio foi o primeiro a alertar para o risco de continuísmo no Planalto em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo, em 2 de agosto do ano passado e, desde então, o assunto vai e volta na pauta de Brasília. "Certamente, há declarações do próprio Lula negando qualquer interesse em continuar habitando o Palácio do Planalto. Mas Lula já disse que é uma metamorfose ambulante, o que significa que pode dizer o quiser hoje para dizer outra coisa amanhã", afirmou Leôncio.     Leia abaixo a entrevista:   estadao.com.br - O sr. foi quem primeiro apontou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo que a intenção de Lula de se manter no poder por mais um mandato, e o tema foi muito debatido à época. Por que esse assunto vai e volta? O risco é real?    Leôncio Martins - Eu acho que sim. O presidente continua em campanha, declaradamente para viabilizar um candidato petista para 2010. Mas as viagens servem mais para popularizar o próprio presidente. Há também freqüentes declarações de adeptos do presidente defendendo um terceiro mandato em 2010.   Certamente, há declarações do próprio Lula negando qualquer interesse em continuar habitando o Palácio do Planalto. Mas Lula já disse que é uma metamorfose ambulante, o que significa que pode dizer o quiser hoje para dizer outra coisa amanhã. Lembro-me que o presidente, quando ascendia como grande líder sindical, declarou diversas vezes que nunca seria candidato a nada porque não tinha jeito para política...   As razões apontadas acima vêm da observação de certos fatos e atos. São de natureza indutiva. Junto com Lula houve a ascensão política, e por conseqüência, social e econômica, de políticos da classe média assalariada. Os sindicatos foram o canal de ascensão. Hoje, somam milhares. Para onde irão os ex-sindicalistas se o PT perder o governo federal? Para suas antigas ocupações é que não. Uma parte, provavelmente, achará emprego em governos estaduais e em outros órgãos do Estado que permaneçam sob administração petista ou de aliados.    estadao.com.br - É o Lula que quer um terceiro mandato? De quem seria essa idéia?   LM - Ninguém de seu círculo agitaria essa alternativa sem a aquiescência do presidente. Mas Lula não deve explicitar, pelo menos desde já, qualquer ambição continuísta. Dever manter uma atitude ambígua, observando os vários desdobramentos do cenário político. O grande líder político deve saber despistar e esconder seus verdadeiros objetivos. Contudo, é difícil acreditar que, alguém com tão alto índice de apoio popular, entregue o poder a um adversário, ou "às elites".   estadao.com.br - Os altos índices de popularidade de Lula o legitimam para tentar um terceiro mandato?   LM - Do ponto de vista das regras do jogo, não. Mas a estratégia aqui seria deixar de lado o formalismo legal e buscar nas "massas" a fonte de legitimação. Seria uma jogada perigosa porque movimentos nessa direção inevitavelmente iriam acirrar a luta de classes.   estadao.com.br -O povo realmente deseja que Lula fique mais no poder, como disse o vice-presidente?   LM - Não conheço pesquisas sobre isso. É possível que o Planalto ou seus aliados as tenha e que seus resultados tenham estimulado as declarações do vice-presidente. Mas são conjecturas.

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