Risco à imprensa é permanente, diz diretor do Estadão

O diretor de conteúdo do Grupo Estado, Ricardo Gandour, abriu sua participação no Seminário Cultura/Liberdade de Imprensa, hoje, na capital paulista, afirmando que não é possível fazer uma gradação do risco à liberdade de imprensa no País. Gandour disse concordar com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que afirmou em sua palestra que a liberdade de expressão está permanentemente em risco e discordou da relativização feita pelo ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República, Franklin Martins, que declarou não haver riscos para a liberdade de imprensa no Brasil.

JAIR STANGLER, Agência Estado

26 de novembro de 2010 | 15h45

Em seguida, Gandour citou como exemplo o caso da censura ao jornal O Estado de S. Paulo e ao portal Estadão.com.br que, desde 2009, estão proibidos pela Justiça de divulgar informações sobre a Operação Boi Barrica, que investiga a atuação do empresário Fernando Sarney, filho do presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Gandour lembrou ainda que existem muitos outros casos de censura judicial a veículos no País.

O diretor de conteúdo do Grupo Estado afirmou que é preciso fortalecer as instituições antes de buscar novas leis e ressaltou "a importância das palavras, atos e gestos governamentais ao colocar uma agenda. O próprio presidente criticou a imprensa. A palavra do presidente não é impune", acrescentou, referindo-se ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Gandour concluiu sua participação afirmando que um dia se poderá avaliar como foi possível que o País tenha evoluído tanto em aspectos do consumo e da economia com tantos riscos de retrocessos políticos.

Críticas

O jornalista Merval Pereira, colunista do jornal O Globo, disse concordar com as avaliações feitas por Gandour. Ele também criticou o presidente Lula por tentar qualificar a mídia como um partido. Para Merval, a mídia não age como partido nem deve fazê-lo.

Além disso, o colunista criticou o argumento de Franklin Martins para regularizar a mídia, segundo o qual a legislação precisa ser atualizada porque é de 1962. De acordo com Merval Pereira, a Constituição brasileira já fez essa atualização e também há outros dispositivos, como o Estatuto da Criança e do Adolescente.

O jornalista também lembrou o episódio conhecido como "bolinhagate", ocorrido durante a campanha eleitoral, para mostrar a importância do contraditório. Em campanha no Rio de Janeiro, o então candidato à Presidência José Serra (PSDB) foi atingido por um objeto na cabeça e chegou a fazer uma tomografia. Segundo Merval, quando o canal SBT mostrou a versão da "bolinha de papel", o presidente se manifestou criticando o candidato tucano. Quando, ainda de acordo com Merval, a Rede Globo mostrou que houve um segundo objeto, Lula se disse "decepcionado" com a emissora.

A jornalista Renata Lo Prete, do jornal Folha de S.Paulo, focou sua participação na crítica à fala feita por Franklin Martins ontem. Para ela, a própria fala do ministro dizendo que não há ameaça à liberdade de imprensa já evidencia o risco. Renata também argumentou que não houve distorção do que disse Franklin Martins sobre a regulação acontecer "com ou sem enfrentamento".

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