Rio perde 50% dos órgãos doados por desorganização

De cada cem órgãos doados no Rio, 50 não são aproveitados por problemas na organização do sistema de perservação, coleta e transplante, segundo dados da Comissão de Acompanhamento do Rio Transplante. A baixa performance do Estado - ele ocupou o 7.º lugar no ranking nacional em número de transplantes em 2001 - levou o Ministério da Saúde a preparar um plano de emergência para auxiliar a Secretaria Estadual de Saúde a melhorar o sistema fluminense."Embora seja responsabilidade da secretaria estadual, o ministério está muito preocupado em ajudar o Rio de Janeiro a encontrar seu caminho. Já conseguimos resolver essa situação em outros Estados, agora queremos que o mesmo aconteça no Rio", explicou Alberto Beltrane, coordenador do Sistema Nacional de Transplantes do ministério, que, na semana passada, enviou uma técnica do ministério para ajudar a secretaria a solucionar os problemas de organização do sistema. No último fim-de-semana, a desorganização do sistema levou a Comissão de Acompanhamento (formada por familiares e transplantados para fiscalizar o trabalho da Rio Transplante) a recorrer à polícia para garantir a captação de um fígado e o transplante para uma vítima de hepatite C. A confusão ocorreu porque o Hospital São Lucas, em Copacabana (zona sul), se recusou a preparar a vítima de morte cerebral para o transplante, alegando que o plano de saúde da paciente tinha sido cancelado com a morte. Com a ajuda da polícia, Geraldo Pereira conseguiur sair da fila de espera - onde passou os últimos dois anos e meio - e receber o fígado.O tumulto não precisava ter acontecido porque, desde 1998, uma norma do ministério determina que qualquer hospital, privado ou público, será pago pelo Sistema Único de Saúde para fazer a preservação e a retirada do órgão. "O hospital estava desinformado. O que a secretaria precisa fazer é montar um esquema que informe todos os hospitais que eles serão pagos. Só assim o Rio fará mais transplantes", disse Beltrane."Essa confusão não precisava ter acontecido se o sistema funcionasse como o de outros Estados. Em São Paulo, por exemplo, a fila anda muito mais rápido e a razão é simples. Lá o sistema é mais organizado", critica Maria Luíza Rezende Mathias, que foi transplantada em 1998 e hoje é membro da Comissão de Acompanhamento.A diretora do Hospital São Lucas, Odete Freitas, reuniu-se hoje com representantes da comissão especial de Saúde da Assembléia Legislativa do Rio, que cobraram explicações sobre a recusa de realizar o transplante. Ela disse que não tinha esclarecimentos sobre os procedimentos adequados para a realização de transplantes. O presidente da comissão, deputado Paulo Pinheiro (PT), informou que o Sistema Único de Saúde (SUS) repassa verba para as cirurgias ao município, mas os hospitais particulares não recebem o dinheiro porque não são credenciados. Pinheiro disse ainda que nem o Rio Transplante é ligado ao SUS. "Estamos enviando um ofício para o Rio Transplante cobrando uma campanha imediata de esclarecimentos em relação aos transplantes e o seu imediato cadastramento na secretaria", disse o deputado.Hoje, o subsecretário de saúde, Roberto Chabo, se reuniu com as equipes de transplante do Hospital do Fundão e do Hospital Geral de Bonsucesso e a comissão de acompanhamento. Segundo Chabo, que assumiu interinamente a coordenação do Rio Transplante na semana passada, as reuniões serão quinzenais e servirão para tirar dúvidas dos pacientes quando ao sistema de trabalho. O subsecretário garantiu que vai trabalhar para que a fila de espera (o Rio tem a segunda maior do País, com cerca de 4 mil pessoas) diminua e para acabar com os problemas burocráticos que prejudicam a captação de órgãos doados.

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