Rio começa a atender doentes de aids em casa

O pedreiro aposentado E., de 47 anos,portador do vírus da aids, vive num barraco de um cômodo no meioda Favela Nova Holanda, em Bonsucesso, zona norte do Rio, áreaclassificada como "local de violência ocasional" pelos agentesde saúde que assinam sua ficha médica. A casa fica na fronteirade duas zonas comandadas por facções criminosas rivais, quedisputam o controle do tráfico de drogas. Para sobreviver, E. precisa ir todos os dias, de muletas ao Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, na Ilha doFundão, onde recebe os medicamentos do coquetel antiaids e umaaplicação na veia de DHPG, remédio que aumenta sua imunidadepara evitar a proliferação de doenças oportunistas. Ele percorreos becos da favela e a Avenida Brasil quase sempre sozinho,algumas vezes com a ajuda de vizinhos, até cruzar a LinhaVermelha, próxima do hospital. Em janeiro, quando começou o tratamento com DHPG, estavapreso a uma cadeira de rodas. As aplicações diárias domedicamento melhoraram sua condição de saúde e ele já conseguese equilibrar com a ajuda de muletas. Tem dificuldade para andarpor causa da flacidez muscular que atinge suas pernas,conseqüência de uma mielite (inflamação da medula espinhal). Masisso não o impede de subir os degraus desnivelados da escadaestreita e sem corrimão que o leva à sua casa. Mora sozinho evive com os R$ 220 que recebe por mês do Instituto Nacional doSeguro Social (INSS). Em janeiro, E. foi escolhido por um grupo de médicos doHUCFF para integrar o projeto-piloto do Programa de AssistênciaDomiciliar Interdisciplinar (Padi). É o primeiro paciente areceber esse tipo de tratamento - inspirado em projetosemelhante criado há seis anos pelo Hospital das Clínicas (SP) -no Rio. Agora, toda terça e quinta, uma equipe formada porenfermeiros e psicólogos vai à casa dele com os medicamentosnecessários para o tratamento. Na semana passada, a reportagemacompanhou uma dessas visitas. A primeira providência dos médicos é pedir autorizaçãoaos chefes do tráfico para entrar na favela. "Sempre temos depedir permissão. Quando tem tiroteio, eles (os traficantes)ligam avisando para não ir. A única recomendação é que a gentevá de uniforme e num carro identificado. Somos muitorespeitadas", diz a coordenadora do Padi, a assistente socialHelena Maria Rodrigues Marins. E. não quis se identificar nesta reportagem por receioquanto ao eventual preconceito que poderia sofrer na comunidade- os vizinhos e amigos da Nova Holanda não sabem que doença eletem. "As pessoas falam muito da vida dos outros." Ele contou que bebia muito até pouco tempo atrás. Agora,já faz planos para o futuro. Diz que pretende voltar a trabalhar"para poder pagar as prestações do fogão". Quando descobriuque tinha aids, há cerca de cinco anos, E. começou a freqüentara Igreja Universal. Ele acredita que tenha contraído a doença aomanter relações sexuais sem preservativo. "Já morri e nasci várias vezes. Deus ajudou, mas foramelas (as médicas do Padi) que me salvaram." A enfermeira RitaBatista dos Santos cuida de E. diariamente - em casa e nohospital. Ela conta que ele fica preocupado, dizendo que estádando muito trabalho para a equipe. "Aí eu falo para não seincomodar com isso, que não tem que achar que estamos fazendo umfavor. É nossa obrigação." "A filosofia é essa: tirar o doente do hospital,ajudando a valorizar sua auto-estima. Sendo tratado em casa, opaciente se livra do risco de infecções hospitalares e tem maisqualidade de vida", diz a coordenadora Helena, citando também ofato de o atendimento domiciliar ser mais barato e liberarleitos.RecursosMas a falta de recursos ainda atrapalha. OPadi, que conta com 11 profissionais de saúde, não tem umaambulância exclusiva e fica dependente do transporte usado portodo o hospital. Por esse motivo, a equipe ainda não pode irtodos os dias da semana à casa de E. A coordenadora diz, porém, que tentará parcerias com ainiciativa privada e o governo do Estado para conseguir a doaçãode uma ambulância e de cestas básicas. A verba mensal desuprimento do Padi é de R$ 250, sem contar os medicamentos quesão fornecidos pelo hospital. Confiante, Helena afirma que oprograma contará com pelo menos dez pacientes de comunidadescarentes até o fim do semestre. Ela conta que a idéia do projeto surgiu a partir daconstatação de que os doentes que têm apoio em casa apresentammelhora acentuada. Para ser incluído no Padi, o paciente devemorar na área do HUCFF, que abrange 16 bairros e favelas, deBonsucesso a Vigário Geral. Também precisa ter um "cuidador",uma pessoa responsável por ele, que pode ser um parente, amigoou vizinho. O programa só aceita doentes crônicos porque o SistemaÚnico de Saúde (SUS) financia o atendimento domiciliar apenas emcasos de aids, oncologia e geriatria. O médico de referência dopaciente é sempre o mesmo durante todo o tratamento. Cristina Moreira Mendes, de 22 anos, aluna da Escola deEnfermagem, acompanha o trabalho da equipe como estagiária. "No hospital, eu sentia falta de conhecer a história decada paciente. Agora, posso dizer que conheço", disse ela, apósa visita à casa de E.

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