Reunião tensa selou destino de Lacerda

Decisão sobre Abin evitou críticas mais duras do STF ao Executivo

Felipe Recondo, O Estadao de S.Paulo

02 de setembro de 2008 | 00h00

Reunião tensa no Planalto, com uma trombada entre os ministros Nelson Jobim (Defesa) e o general Jorge Felix (Gabinete de Segurança Institucional) e um desabafo do presidente da República, queixando-se de que grampos atingiram até sua família e seu chefe de gabinete, selou o destino da cúpula da Agência Brasileira de Inteligência (Abin). A reunião abriu a agenda do Planalto, ontem, e levou os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), horas depois, a evitar um confronto com o Executivo e, cautelosos, a esperar uma medida concreta do governo antes de endurecer o discurso.No Planalto, o presidente do STF, Gilmar Mendes, relatou que, sob o comando de Paulo Lacerda, a Polícia Federal vazou dados errados durante a Operação Navalha para, supostamente, prejudicá-lo. Durante as investigações, agentes disseram que Mendes recebia presentes do dono da empreiteira Gautama, Zuleido Veras, pivô do escândalo. Depois, descobriu-se tratar-se de um homônimo.Desta vez, com Lacerda no comando da Abin, surgiu a denúncia de que Mendes foi grampeado. Ele avisou que o tribunal não aceitaria uma investigação que não desse resultado. Jobim capitaneou as cobranças ao general Felix. Ex-presidente do STF, disse que a Abin está fora de controle - o general tentou pedir tempo para apurar o grampo, mas o clima da reunião já era a favor de uma medida concreta.Coube a Lula amainar os ânimos e mostrar a Mendes que também estava incomodado com os grampos. O presidente reclamou que um de seus irmãos, Genival Inácio da Silva, o Vavá, teve conversas gravadas pela PF, assim como seu chefe de gabinete, Gilberto Carvalho.À tarde, na reunião do Conselho de Ministros do STF, poucos insuflaram para que fosse dada uma resposta dura ao governo, estes capitaneados pelo vice-presidente do tribunal, Cezar Peluso. Ele sugeriu a divulgação de uma nota pública. Mas a maioria dos ministros preferiu aguardar os desdobramentos do caso para então responder ao governo. Defenderam que o Supremo precisava ser "sereno".A sugestão foi acatada por todos os ministros, inclusive por Mendes e Peluso, a quem coube redigir a frase divulgada à imprensa que informava que o Supremo havia decidido "aguardar as providências exigidas pela gravidade dos fatos". Nas entrelinhas, argumentavam os ministros, deixavam claro que não aceitariam uma operação abafa e davam o aviso de que providências poderiam ser tomadas se nada fosse feito, a começar pela demissão de Paulo Lacerda.

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