Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Reunião entre Bolsonaro e Mandetta é descrita como 'tranquila' por auxiliares

Cerca de 40 minutos após a saída do ministro, o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS) chegou ao Planalto para falar com o presidente

Julia Lindner, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2020 | 15h39

BRASÍLIA - A reunião entre o presidente Jair Bolsonaro e o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, na manhã desta quarta-feira, 8, foi descrita como "tranquila" por integrantes do governo. De acordo com um auxiliar do presidente, Bolsonaro e Mandetta estão "acertando os pontos para seguir em frente".

A expectativa do Palácio do Planalto é que o ministro da Saúde se alinhe ao discurso defendido pelo presidente sobre o novo coronavírus e mantenha perfil mais discreto. A visibilidade de Mandetta durante a crise tem incomodado Bolsonaro, que chegou a ameaçar tomar providências em relação a integrantes do governo que "viraram estrelas".

Após encerrar, por ora, os rumores de que deixaria o governo, Mandetta esteve por pouco mais de uma hora com o presidente pela manhã. O ministro entrou e saiu sem falar com a imprensa.

Além disso, o Palácio do Planalto informou que, diferentemente do que ocorre em outros dias, não serão permitidas perguntas de jornalistas durante balanço diário do Ministério da Saúde para tratar da situação da covid-19 no País. O balanço é coordenado pelo Ministério da Casa Civil.

Depois do encontro, o presidente Jair Bolsonaro decidiu fazer um novo pronunciamento em rede nacional de rádio e televisão, que será veiculado na noite desta quarta-feira, 8. O pronunciamento de hoje tem o objetivo de tranquilizar a população antes do feriado de Páscoa, após dias de conflitos internos no governo.

Cerca de 40 minutos após a saída do ministro, o deputado federal Osmar Terra (MDB-RS), chegou ao Planalto. O nome de Terra não constava da agenda pública de Bolsonaro desta quarta-feira.  O parlamentar, que é ex-ministro da Cidadania, é um dos cotados para substituir Mandetta caso o presidente decida trocar seu ministro da Saúde.

Pouco antes de se reunir com Mandetta, Bolsonaro voltou a defender, nas redes sociais, o uso da cloroquina no tratamento de pacientes com covid-19. O presidente é um entusiasta do medicamento indicado para malária e doenças autoimunes, mas que tem apresentado resultados promissores contra o coronavírus. O ministro, por sua vez, tem pedido cautela na prescrição do remédio, uma vez que ainda não há pesquisas conclusivas que comprovem sua eficácia contra o vírus.

“Há 40 dias venho falando do uso da hidroxicloroquina no tratamento do COVID-19. Sempre busquei tratar da vida das pessoas em 1° lugar, mas também se preocupando em preservar empregos”, postou o presidente na manhã de hoje.

Bolsonaro disse ter feito contato com “dezenas de médicos” e alguns chefes de estados de outros países para falar sobre os medicamentos. “Cada vez mais o uso da cloroquina se apresenta como algo eficaz”, argumentou.

Na publicação, o presidente também citou que dois médicos brasileiros se negam a divulgar se utilizaram os dois remédios em seus tratamentos contra o novo coronavírus. Bolsonaro faz referência ao coordenador do Centro de Contenção para o novo coronavírus no Estado de São Paulo, David Uip. O médico precisou ser internado após ser diagnosticado com a covid-19. Uip tem sido pressionado para revelar se utilizou ou não cloroquina e da hidroxicloroquina durante seu tratamento.

“Dois renomados médicos no Brasil se recusaram a divulgar o que os curou da COVID-19. Seriam questões políticas, já que um pertence a equipe do Governador de SP?”, questionou. “Acredito que eles falem brevemente, pois esse segredo não combina com o Juramento de Hipócrates que fizeram. Que Deus ilumine esses dois profissionais, de modo que revelem para o mundo que existe um promissor remédio no Brasil”, disse Bolsonaro.

Ontem, em entrevista, o ministro da Saúde afirmou que o órgão acompanha estudos clínicos sobre a eficácia de medicamentos contra o novo coronavírus, entre eles, a cloroquina e a hidroxicloroquina. Os primeiros resultados devem ser conhecidos a partir do próximo dia 20. No brasil, a droga já está disponível nos hospitais para pacientes com quadros moderados e graves. Fora desse grupo, o ministério não recomenda a utilização.

"Já liberamos cloroquina e hidroxicloroquina tanto para os pacientes críticos, aqueles que ficam em CTIs, quanto para qualquer paciente em hospital, o moderado. O medicamento já é entregue, já tem protocolo”, disse o ministro.

Na segunda-feira, Mandetta afirmou ter sido pressionado por dois médicos a editar um protocolo para administração dos medicamentos, após reunião com o presidente Bolsonaro. Ele se recusou alegando ausência de embasamento científico.

Ministro sob risco de demissão

A recusa do ministro de contrariar recomendações de organizações de saúde para atender o que prega o presidente levou a um estremecimento na relação e a rumores de que ele seria demitido. Em entrevista na segunda-feira, Mandetta admitiu que seus auxiliares na pasta chegaram a limpar suas gavetas. Na ocasião, em um pronunciamento à imprensa, ele pediu "paz" para trabalhar e reclamou de  críticas que, em sua visão, criam dificuldades para o seu trabalho. 

Na semana passada, Bolsonaro chegou a dizer que Mandetta "extrapolou" e faltava "humildade" ao chefe da pasta da Saúde. E destacou que não o demitiria no "meio da guerra", apesar de ninguém em seu governo ser "indemissível".

A avaliação do presidente, porém, é de que seu ministro adotou uma postura arrogante diante da crise e deveria ouvi-lo mais. “Algumas pessoas do meu governo, algo subiu à cabeça deles. Estão se achando demais. Eram pessoas normais, mas, de repente, viraram estrelas", afirmou o presidente no domingo, ao receber apoiadores no Palácio da Alvorada.  Era uma indireta por Mandetta ter participado de uma “live” da dupla sertaneja Jorge e Mateus, quando voltou a defender o isolamento social, um dos pontos de divergência com o chefe do Executivo.

Durante entrevista na segunda-feira, Mandetta afirmou que não deixaria o cargo por vontade própria, destacando que um "médico não abandona o seu paciente". Disse ainda que, caso seja demitido, toda a sua equipe, que está na linha de frente do combate ao coronavírus no País, deve sair junto.

Militares do governo ajudaram a serenar os ânimos e intercederam junto a Bolsonaro para que ele não demitisse o ministro neste momento. O grupo de generais que trabalha no Palácio do Planalto insiste que essa é uma guerra que não é boa para ninguém. E alertam para falta de opção. O ex-ministro Osmar Terra, um dos aliados que mais tiveram acesso a Bolsonaro nos últimos dias e passou  a ser cotado para a vaga na Saúde, foi demitido do Ministério da Cidadania porque não dava resultado.

Desde a situação envolvendo a saída de Mandetta, Bolsonaro tem mantido o silêncio e evitado a imprensa. Ontem chegou a faltar dois compromissos previstos em sua agenda.

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