Retórica anti-EUA virou arma política

Chávez não poupou ataques a Washington, mas manteve as exportações de petróleo

DENISE CHRISPIM MARIN, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2013 | 07h21

Os EUA mantêm-se mudos há pelo menos sete anos quando o assunto é a Venezuela e seu presidente, Hugo Chávez. Cada um dos impropérios, acusações e críticas do líder venezuelano ao "império" ficou sem resposta de Washington por três razões: qualquer coisa dita não ajudaria a recuperar o desgaste na relação entre a Venezuela e os EUA, criaria ecos indesejáveis nas relações com outros países sul-americanos e ainda interferiria no elo essencial entre as duas nações, o comércio de petróleo.

Em seus 14 anos no poder, Chávez atacou os EUA e seus líderes em todas as ocasiões e com toda a veemência que pôde. Em 2006, desinfetou o púlpito da Assembleia-Geral da ONU, segundo ele infestado pelo "odor de enxofre" exaurido pelo então presidente americano, George W. Bush, que discursara dois dias antes. "O diabo esteve por aqui", declarou, para, em seguida, aplicar a Bush os adjetivos de "tirano" e "cínico", e aos EUA, de "império fascista" e "genocida".

Chávez acusou os EUA de terem planejado o golpe de Estado de abril de 2002, atiçou o antiamericanismo em seu país e na região, mobilizou países vizinhos para iniciativas contrárias aos interesses de Washington, aliou-se ao Irã, aproximou-se de Líbia e Síria, meteu-se em conversas com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e interferiu na política antidrogas da vizinhança. Recentemente, o líder bolivariano insinuou que os EUA têm responsabilidade pelo diagnóstico de câncer em vários líderes latino-americanos.

Chávez só não interferiu na exportação de petróleo da Venezuela para os EUA, seu maior mercado. A Venezuela é atualmente o quarto maior fornecedor de petróleo para os Estados Unidos, com uma remessa de 253 milhões de barris entre janeiro e setembro deste ano. À sua frente nesse mercado estão apenas o Canadá, a Arábia Saudita e o México, este último quase empatado com a Venezuela. O país sul-americano mantém no Texas a refinaria Citgo, adquirida entre os anos 80 e 90 pela PDVSA, e hoje detentora da capacidade de refino de 749 mil barris diários. Em todo o território do "grande satã", ao menos 6 mil postos de gasolina trazem a bandeira venezuelana.

Estratégia. As exportações de produtos americanos para a Venezuela quase dobraram entre 1998, quando Chávez foi eleito pela primeira vez, e o ano passado. Somavam US$ 6,5 bilhões e passaram para US$ 12,4 bilhões. Entre janeiro e outubro deste ano, essa mão do comércio bilateral bateu um recorde ao alcançar US$ 14,3 bilhões. Em corrente de comércio, a Venezuela é o 14.º parceiro dos EUA - o Brasil é o 8.º.

A receita de ignorar os impropérios de Chávez partiu, em 2005, do então secretário-assistente de Estado para o Hemisfério Ocidental, Thomas Shannon, hoje embaixador dos EUA no Brasil. Aliado ao Brasil e à Argentina, o líder venezuelano havia alcançado naquele ano o objetivo de acabar com as negociações da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), durante a reunião de Cúpula das Américas de Mar del Plata. No mesmo dia, em discurso no Estádio Mundialista e ao lado do ídolo argentino Diego Maradona, Chávez disse que a Alca estava "enterrada".

Para Peter Hakim, presidente do centro de estudo Diálogo Interamericano, o pior momento das relações bilaterais deu-se com o golpe de Estado que derrubou Chávez do poder por dois dias, em 2002. O governo Bush imediatamente reconhecera a legitimidade do usurpador, o que deu a Chávez o argumento de que Washington tinha planejado sua queda. "Chávez, com esse episódio, ficou liberado para portar-se sem civilidade diante dos EUA e tornou-se cada vez mais hostil a Washington", afirmou.

Defesa. Em 2008, o líder venezuelano tomou as dores do governo de Evo Morales, da Bolívia, cujo embaixador em Washington fora expulso pelos EUA. Deu um prazo de 72 horas para o "embaixador ianque em Caracas", Patrick Duddy, deixar a Venezuela e somente dez meses depois, em junho de 2009, retirou as acusações ao diplomata. As relações foram recompostas, pelo menos na hierarquia das embaixadas.

O desgaste gradual das instituições democráticas na Venezuela, com a concentração de poderes nas mãos de Chávez, seu controle sobre o Legislativo e o Judiciário, e suas iniciativas para dizimar a liberdade de imprensa, tornou-se uma preocupação permanente em Washington, que se viu de mãos atadas.

Primeiro, pelas reações de Chávez, que lhe serviam como escudo. Segundo, pelo respaldo do Brasil e outros países sul-americanos à nova "democracia" venezuelana. O diálogo sobre o fortalecimento das instituições foi anulado, assim como o espaço para qualquer tipo de cooperação.

"Sempre deixamos a porta aberta para a melhoria do diálogo com a Venezuela. Mas, até agora, não tivemos respostas", afirmou um diplomata americano.

Ao longo dos mesmos 14 anos de Chávez na presidência da Venezuela, os EUA assistiram à perda de sua relevância na América do Sul. Para Hakim, as agressões verbais e as ações hostis de Chávez contra interesses americanos não chegaram a ser o fator determinante dessa situação.

Cooperação. O Brasil, com uma política externa mais agressiva na cooperação com o mundo emergente, fez mais para a perda da influência dos EUA na América do que os impropérios de Chávez, segundo Hakim. Seus ataques verbais contra os EUA imprimiram uma conotação antiamericana a cada novo passo dado pela comunidade de países da América do Sul. Mas, necessariamente, esses novos organismos e iniciativas não têm essa coloração.

"A morte de Chávez não vai restaurar a autoridade dos EUA na América Latina", disse Hakim. "A ascensão do Brasil foi um importante fator. Os EUA também perderam influência em razão da crise econômica, da polarização política interna e da distração com duas guerras."

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