Restrição no Ipea faz diretor se demitir

Uma decisão inédita tomada pela direção do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), de proibir a publicação de estudos realizados pelos pesquisadores envolvendo dados públicos divulgados entre julho e o fim das eleições presidenciais, gerou uma crise interna. O diretor de estudos e políticas sociais do Ipea, Herton Araújo, colocou seu cargo à disposição por discordar da definição da cúpula do instituto.

JOÃO VILLAVERDE E RAFAEL MORAES MOURA, Estadão Conteúdo

16 de outubro de 2014 | 20h41

Disposto a publicar um estudo técnico com dados sobre miséria social no Brasil a partir da mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), divulgada há três semanas, Araújo trouxe o assunto à reunião da diretoria colegiada do Ipea, realizada no dia 9 deste mês. Ele não conseguiu. A decisão do Ipea foi mantida: estudos somente serão divulgados a partir do dia 27 de outubro, após a realização do segundo turno eleitoral.

Segundo nota do próprio Ipea enviada ao jornal "O Estado de S. Paulo", "o Sr. Araújo procurou convencer os demais membros do colegiado a rever a decisão, restando vencido". De acordo com o Ipea, o instituto decidiu, no início de agosto, suspender até o fim das eleições a divulgação de "estudos não periódicos".

"A decisão baseou-se no entendimento de que uma instituição de pesquisa de Estado não deveria, neste período, suscitar acusações de favorecimento a um ou outro candidato", afirmou o Ipea, em nota. Segundo o órgão, vinculado à Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE), comandada por Marcelo Néri, "por discordar desta interpretação da lei eleitoral, o Sr. Araújo colocou o cargo à disposição". Araújo não deliberou sobre o tema em agosto, mas, de acordo com o Ipea, tentou rever a decisão na reunião da diretoria colegiada.

A crise interna no Ipea vem após diversos ruídos de comunicação envolvendo a área social do governo Dilma Rousseff. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou uma versão com erros da Pnad e somente corrigiu os dados 24 horas após o anúncio original. O constrangimento decorrente do erro quase rendeu a demissão da presidente do IBGE, Wasmália Bivar. O próprio Ipea foi envolvido em episódio semelhante, no primeiro semestre, quando divulgou uma pesquisa com erros.

Eleições

No mês passado, o Ministério da Educação (MEC) foi acusado de retardar a divulgação do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) por conta do período eleitoral. Na época, o ministro da Educação, Henrique Paim, disse que o índice colocava "em xeque" a gestão de Estados e municípios na área.

"Esse governo é um governo que tem um DNA voltado para a questão da avaliação e para divulgação de dados, temos muita tranquilidade em relação a isso. O resultado do Ideb coloca em xeque gestão dos Estados e municípios, por isso temos todo o cuidado em divulgar", afirmou Paim. O ministério negou a contaminação eleitoral e divulgou os dados no início de setembro, com atraso. O índice apontou evolução nos anos iniciais do ensino fundamental, mas estagnação no ensino médio entre as avaliações de 2011 e 2013, mantendo-se em 3,7. A meta para 2013 era de 3,9.

O ministro da Secretaria de Assuntos Estratégicos, Marcelo Néri, integrou a comitiva da presidente Dilma Rousseff em viagem feita em 23 de setembro, por conta da abertura da 69ª Assembleia Geral das Nações Unidas. Na ocasião, Dilma fez um discurso de teor eleitoral, enfatizando as conquistas sociais de 12 anos de governo do PT, a geração de empregos e o combate à pobreza.

Procurado nesta quinta-feira, o diretor Herton Araújo não retornou as ligações.

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