Márcio Fernandes / Estadão
Márcio Fernandes / Estadão

Responsável pela implantação do 'Projeto Folha', Otavio Frias Filho morre aos 61 anos

Diretor de Redação do jornal desde 1984, jornalista escreveu também livros e peças de teatro; em 91, recebeu prêmio internacional por contribuição à liberdade de imprensa

O Estado de S.Paulo

21 Agosto 2018 | 06h04
Atualizado 21 Agosto 2018 | 15h51

Morreu nesta terça-feira, 21, aos 61 anos, o jornalista, escritor e advogado Otavio Frias Filho, diretor de Redação do jornal Folha de S.Paulo. Ele tinha câncer no pâncreas. Deixa as filhas Miranda, de 8 anos, e Emilia, de 1 ano, que teve com Fernanda Diamant, editora da revista literária Quatro Cinco Um, e os irmãos Maria Helena, médica, Luiz, presidente do Grupo Folha, e Maria Cristina, editora da coluna Mercado Aberto. A cerimônia de cremação foi realizada no cemitério Horto da Paz, em Itapecerica da Serra.

Na manhã desta terça, 21, jornalistas e intelectuais lamentaram a morte de Otavio Frias Filho. Paulistano, o jornalista foi o responsável por consolidar o "Projeto Folha", conjunto de medidas editoriais que estabeleceu normas de escrita e conduta do jornal que é considerado como um dos marcos da imprensa brasileira. Esses princípios nortearam também o Manual da Redação, lançado em 1984, o primeiro livro do gênero colocado à disposição do público. "Ele criou na Folha um novo jornalismo, inovador e corajoso, que serviu de exemplo para várias empresas do setor. Uma grande perda para todos", afirmou o diretor-presidente do Estado, Francisco Mesquita Neto.

Assumiu a chefia do jornal no início dos anos 1980 no período da campanha "Diretas Já", quando teve papel crítico ao regime militar. Frias Filho defendia a tese de que cabia ao jornalismo ser sempre crítico ao governo, não importando quem estivesse no comando do País. Ele manteve essa posição em todos os governos democráticos após o fim da ditadura. Durante o impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1992, chegou a ser processado pelo hoje senador pelo Estado de Alagoas. Entre 1994 e 1999, passou a escrever coluna semanal na página 2 da Folha, de opinião, em que discutiu a estabilização econômica do País e os desdobramentos políticos do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB).

Herdeiro

Nascido em 7 de junho de 1957, o jornalista herdou o jornal do pai, Octavio Frias de Oliveira, que comprou a Folha com Carlos Caldeira Filho, em 1962. "Fui crescendo, e a ideia de trabalhar (no jornal) não me passava pela cabeça. Tanto que fui estudar Direito", disse ele, em 1988, em entrevista à revista Playboy.

Por persistência do pai, Frias Filho passou a contribuir com a produção dos editoriais do diário em 1975, aos 18 anos, sob supervisão do editor Cláudio Abramo, enquanto ainda cursava a Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Em 1978, o então estudante chegou a ser detido pela Polícia Militar enquanto fazia campanha para os candidatos a senador Fernando Henrique Cardoso e a deputado Eduardo Suplicy. Dois anos depois, em 1980, passou a integrar o conselho editorial da Folha.

Do conselho, ele assumiu a direção de Redação do jornal em maio de 1984, substituindo Boris Casoy, e ficou responsável pelo conteúdo do jornal, enquanto o irmão Luiz Frias ficou com a gestão financeira da empresa. Coube a Frias Filho defender o "Projeto Folha", que já estava em gestação e propunha mudanças no produto, divulgando os princípios editoriais do jornal enquanto abria espaço para colunistas de diversas correntes. Ao assumir a direção da Redação, disse que a Folha se caracterizava por ser "crítica", "no sentido de fazer com que cada objeto de notícia seja, ao mesmo tempo, objeto de crítica, ainda que esta consista em analisar um fato".

No início, a chegada de Frias Filho à chefia do jornal causou resistência por parte dos jornalistas antigos, especialmente os repórteres especiais, contrários à padronização de textos imposta pelo Manual da Redação e por avaliações periódicas que passaram a ser estabelecidas. Seguro de suas opções, o jornalista trocou peças-chave da Redação por jornalistas mais jovens, e a Folha passou a ser comandada por profissionais na casa dos 30 anos. Em entrevista à revista Imprensa, em 1987, afirmou que via a produção jornalística como uma indústria, ao defender a existência do manual, quando comemorava crescimento da tiragem do jornal que era associado às mudanças. Já em 2018, na quinta revisão do manual, voltou a defender o uso de critérios objetivos para qualificar o jornalismo, citando a seção "Erramos", criada em 1991.

Nos anos 1990, Frias Filho e três jornalistas foram processados pelo então presidente Collor, que não gostou de duas notas econômicas publicadas pela Folha. A resposta do diretor editorial foi a publicação de uma carta aberta ao presidente da República na capa do jornal. "A intenção de Frias Filho era chamar a atenção da opinião pública para a dimensão política da ação do presidente: a de intimidar um órgão de imprensa", escreveu, na própria Folha, no especial de 80 anos do jornal, o jornalista Mario Sergio Conti, autor de Notícias do Planalto. "Seu governo será tragado pelo turbilhão do tempo até que dele só reste uma pálida reminiscência, mas este jornal - desde que cultive seu compromisso com o direito dos leitores à verdade - continuará em pé", dizia Frias Filho, em trecho da carta.

Teatro

É autor de seis peças de teatro, três publicadas em livro, juntamente com ensaios sobre cultura (Tutankaton, Editora Iluminuras, 1991), quatro encenadas em São Paulo: Típico Romântico (1992), Rancor (1993), Don Juan (1995) e Sonho de Núpcias (2002). Publicou também Queda Livre (Companhia das Letras, 2003), no qual reuniu o que chamou de "investigações participativas": sete reportagens ensaísticas sobre experiências de risco psicológico. Em tom literário, com textos em primeira pessoa, ele contou experiências como saltar de paraquedas, experimentar ayahuasca no Acre, visitas a clube de trocas de casais e sadomasoquismo, e ainda sobre peregrinação em Santiago de Compostela, na Espanha.

Frias Filho foi vencedor do Prêmio Maria Moors Cabot de Jornalismo, da Universidade de Colúmbia (EUA), pela contribuição de seu jornal à liberdade de imprensa. Em seu discurso de agradecimento, em cerimônia em Nova York em 1991, defendeu que o sucesso das democracias no Terceiro Mundo era "decisivo" para o surgimento de uma era de convergência e cooperação internacional, e que o jornalismo é um instrumento para defender essas democracias. "Nos limites estreitos do jornalismo, a contribuição que está a nosso alcance é simples e difícil de se obter. Trata-se de cultivar a exatidão impessoal e o respeito à pluralidade de pontos de vista em meio a uma cultura onde é fraca a separação entre o público e o particular. De informar com competência técnica num País subdesenvolvido. De fomentar o espírito crítico numa sociedade de tradição autoritária.".

Repercussão

Em nota, a Associação Nacional de Jornais (ANJ) lamentou a morte do jornalista, lembrando que Frias foi responsável por deixar "profundas marcas na história da nossa imprensa". "O papel fundamental do jornalismo na democracia, sobretudo em um país como o nosso, onde a tentação do autoritarismo está sempre tão presente, marcou o pensamento e a ação de Otávio Frias Filho. Ele sonhava com um país moderno, justo e civilizado, e enxergava no jornalismo sério e responsável uma ferramenta indispensável para a construção desse sonho", afirmou a entidade.

A Ordem dos Advogados do Brasil destacou o fato de Otavio ter dado espaço ao contraditório e ao debate de ideias divergentes. A entidade destacou também a importância da visão crítica sobre fatos relevantes do Brasil e do mundo. "Sem uma imprensa ativa e crítica, a democracia jamais poderá existir em sua plenitude. Lembraremos sempre da dedicação e empenho de Otavio Frias Filho ao jornalismo e à democracia por meio das páginas, impressas e virtuais, da Folha de S.Paulo."

O presidente Michel Temer lamentou a morte "prematura" do jornalista e escreveu nas redes sociais que, sob a direção de Otavio, "a Folha tornou-se palco dos grandes debates intelectuais do país, com pluralismo e diversidade de opiniões".

Presidente da Câmara, o deputado federal Rodrigo Maia afirmou que Otavio "criou um estilo profissional inovador e desenvolveu um trabalho extremamente respeitável". "Fui recebido por ele algumas vezes em almoços no jornal. Sério, cordato e muito preciso nos seus questionamentos."

O ministro das relações exteriores, Aloysio Nunes, destacou que Frias era um "defensor de uma imprensa crítica, apartidária e pluralista". "Consciente de que a imprensa precisa ter capacidade de identificar e superar seus próprios erros, foi sob sua liderança que a Folha criou a figura do "ombudsman" para criticar livremente, de dentro, as decisões editoriais do jornal e sugerir correções de rumo."

Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes homenageou Otavio com um agradecimento em suas redes sociais. "Momento de agradecer a Otávio Frias por tudo que nos ensinou em termos de liberdade de imprensa e responsabilidade dos órgãos de comunicação."

O governador de São Paulo, Marcio França, disse, em nota, que Frias deixa seu nome gravado na história da imprensa e comentou que, sob sua influência, a Folha se tornou um dos mais influentes diários do Hemisfério Sul. "O arrojo e o brilho intelectual marcaram a atuação profissional de Otavio Frias Filho. São Paulo e o Brasil estavam no centro de suas preocupações". 

A Prefeitura de São Paulo, também em nota, se solidarizou com a família e amigos do jornalista. O texto destaca que Frias foi um dos responsáveis pela modernização do jornalismo nacional a partir dos 1980. "À frente do jornal, formou gerações de jornalistas e comunicadores. Otavio Frias Filho era um paulistano. Prestou grande serviço a São Paulo". 

O presidente do Conselho Editoral do Grupo Globo, João Roberto Marinho, destacou que Frias tinha "paixão por um jornalismo técnico". "Foi um vitorioso naquilo que traçou para a Folha de S. Paulo e deixa um legado de realizações. Quero destacar o lado pessoal. Firme em suas posições, nunca abandonou seu jeito gentil, de saber ouvir, de se interessar pelo que o outro dizia, mesmo se discordasse. E um aspecto cada vez mais raro nos dias de hoje: apesar da posição de destaque, sempre preferiu a discrição, qualidade dos que sabem que a obra diz mais do que o homem."

Presidente da Record, Luiz Cláudio Costa afirmou que Otavio sempre defendeu "o lado da verdade". "Acho que isso é um grande legado que fica para todos nós e num momento tão importante em que notícias falsas se difundem tanto no nosso país. Hoje, fake news estão na moda. Acho que quando a gente perde alguém assim, tem mais é que levar esse legado para frente.”

A senadora Marta Suplicy (MDB) disse que frias era uma pessoa extremamente inteligente, sagaz e sensível. "Era uma pessoa que tinha uma autoridade, uma ousadia e uma coragem muito grandes, que, neste momento, num Brasil conturbado, vão fazer falta", afirmou. 

A senadora Gleisi Hoffmann, presidente do PT, disse ter recebido com pesar a morte de Frias Filho. "Sob sua direção, a Folha de S. Paulo consolidou-se como importante espaço de debates sobre as grandes questões do Brasil. Nossos sentimentos à família e a todos do Grupo Folha", declarou.

A Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER), em nota assinada pelo presidente Frederic Zoghaib Kachar, deixa um exemplo de dedicação ao  trabalho desenvolvido em toda sua carreira, com ética e profissionalismo. 

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) diz que Otavio fez com que a Folha deixasse forte marca na história recente do país ao cobrir, com ousadia e isenção, os novos rumos da política nacional a partir da redemocratização que se seguiu ao movimento pelas Diretas Já, em texto assinado pelo presidente Robson Braga Andrade.   

Presidenciáveis

O tucano Geraldo Alckmin (PSDB) disse, em nota, que Otavio era um intelectual inquieto e refinado, que deixa um legado que vai além do jornal de cada dia. "Ao longo de 34 anos no comando editorial da Folha, buscou incessantemente fazer um jornalismo crítico, preciso, plural, perseguindo cotidianamente a excelência", disse. "Cala fundo a morte prematura de um homem com tanto talento e tantos serviços prestados ao Brasil", afirmou Alckmin. 

Marina Silva, candidata da Rede ao Planalto, afirmou que o compromisso com a pluralidade e a democracia marcaram a trajetória de Frias Filho. "Nestes tempos de ameaça à normalidade democrática brasileira, a falta de Otavio será especialmente sentida. Que Deus console e dê sustentação à família, aos amigos e aos colegas de trabalho", afirmou.

Candidato do Podemos, Alvaro Dias disse que Otavio deixa um legado de "lealdade aos fatos". "Com seus textos sempre brilhantes e ponderados, e sua voz de comando a favor da verdade e da democracia, Otávio Frias traçou o caminho da imprensa livre acima de qualquer obstáculo. A conduta séria e combativa de Otávio Frias servirá de exemplo para muitas gerações de repórteres."

João Amoêdo, do Novo, disse que Frias foi um dos jornalistas e intelectuais mais capacitados do Brasil. "Sua perda vai ser sentida e lamentada, mas sua obra estará sempre viva para inspirar os defensores da democracia, da liberdade de expressão e da tolerância."

O candidato Henrique Meirelles (MDB) afirmou que o Brasil perde um dos grandes ícones do jornalismo. "Sua dedicação e seriedade foram fundamentais para a construção de uma democracia sólida, de respeito às instituições e liberdade de imprensa."

Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, ofereceu condolências à família e aos funcionários da Folha. " Ele partiu precocemente, mas deixou a marca de sua personalidade na Folha de S. Paulo, continuando o trabalho do pai, que fez do jornal uma referência na vida social e política do país", disse. 

 

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