Repressão a ato anti-ACM deixa pelo menos 25 feridos

O campus do Canela, da Universidade Federal da Bahia (UFBA) se transformou num campo de batalha na tarde de hoje, quando 300 soldados da Tropa de Choque da Policia Militar baiana reprimiu com violência mais uma manifestação de estudantes e sindicalistas que pedia a cassação do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA).A PM não só desrespeitou uma ordem judicial que pedia a desocupação da UFBA, como invadiu e jogou bombas de gás lacrimogêneo em cinco unidades da universidade levando pânico aos estudantes, funcionários e pessoas que circulavam pelo Vale do Canela, uma dos principais vias da capital baiana.Depois de uma hora de confronto, pelo menos 25 pessoas saíram feridas, entre os quais o vereador Celso Cotrim (PT) que sofreu uma perfuração na perna direita e estudantes secundaristas atingidos por estilhaços das bombas.Os manifestantes começaram a se reunir por volta das 10 horas, em frente à Reitoria da UFBA. Três carros de som foram usados para sindicalistas e estudantes puxarem slogans contra ACM e velhas palavras deordens da esquerda. Um dirigente da União Nacional dos Estudantes resolveu homenagear os "ícones" da esquerda e passou a citá-los: "Marighela, Guevara, Lamarca, Zapata, Comandante Marcos" enquanto a multidão aplaudia.Enquanto isso os líderes da manifestação tentavam negociar com o tenente-coronel Walter Leite, o percurso da passeata. "Se for para lá (a frente do prédio de ACM no Bairro da Graça) vai ter confusão", avisou o oficial. Os manifestantes saíram, então em direção à Praça do Campo Grande, sendoacompanhados por batedores da PM. Contudo, fizeram a volta por uma rua que retornava ao Bairro do Canela e tentaram alcançar a Graça pelo Campus da UFBA. No Viaduto do Canela, que liga várias unidades como a Escola de Biblioteconomia e a Faculdade de Odontologia à Faculdade de Direito, a PM montou uma barreira com 300 soldados da Tropa de Choque e a Cavalaria. A ladeira que dá acesso à Faculdade de Direito é a mesma por onde se chega ao Largo da Graça onde fica o Edificio Stella Maris, morada de ACM.Sem poder prosseguir, cerca de cinco mil manifestantes esperaram por cerca de uma hora negociações entre deputados do PT e PC do B com oficiais da PM. Muitos reclamaram da invasão do Campus da UFBA, enquanto a deputada estadual Alice Portugal (PC do B) entrava em contato com o chefe da Procuradoria Geral da Republica na Bahia, Robério Nunes, pedindo que o Ministério Público solicitasse uma liminar para retirar os PMs do espaço da universidade federal. Uma cópia fax da liminar expedida pelo juiz Márcio Flávio Mafra, da 2a Vara da Justiça Federal, chegou minutos depois, trazido pelo juiz e professor da Faculdade de Direito da UFBA, Wilson Alves de Souza. O tenente-coronel Leite disse que só aceitaria o original e levadapor um oficial de Justiça.Os manifestantes decidiram então seguir em passeata até o Shopping Barra mas como precisavam passar em frente à Tropa de Choque para descer a ladeira até o Vale do Canela, houve muita provocação. Eles xingaram os policiais e tentaram ridicularizá-los, cantando "Marcha soldado, cabeça de papel...". Os mais exaltados atiravam copos e garrafas de água mineral contra os escudos. Tudo parecia que iria acabar bem até que a chegada de duas viaturas da Superintendência da Polícia Federal agitou os manifestantes. Elesentenderam que os agentes garantiriam o acesso até a Faculdade de Direito. Muitos se anteciparam subindo um barranco que vai dar no estacionamento da faculdade. Houve empurra-empurra e nesse momento os policiais começaram a atirar as bombas. Centenas de estudantes correram desesperados em direção ao Vale do Canela. Vários se feriram ao tropeçar e cair, outros com estilhaços das bombas. A estudante Elaine Cerqueira, 15 anos, do Colégio Estadual Teixeira de Freitas, foi uma das feridas com estilhaços nas pernas e precisou ser socorrida num dos hospitais de Salvador. Dois estudantes do Colégio Anchieta, da rede particular, também precisaram de atendimento médico na Clínica Cot. Daniel Dantas, 16 anos, feriu as costas com estilhaços de bombas e Ênio Neto, 16, a parte inferior da testa, que divide os olhos. Seus colegas estavam chocados com a violência.Num determinado momento, os policiais partiram para fazer uma varredura no vale e sem qualquer preocupação invadiram o Instituto de Ciências da Saúde, o Instituto de Educação, a Faculdade de Medicina e Escola de Administração, atirando bombas de gás. Uma das bombas acertou uma das salas de Administração cheia de alunos que entraram em pânico. Ao responder às pedras que estudantes atiravam do alto do vale, um policial acertou uma bomba na Escola de Música, provocando o desmaio de uma estudante que os colegas conhecem como Priscila e que também foi levada para a Clínica Cot.O clima foi se acalmou por volta das 15h10, quando o Vale do Canela foi desocupado pela Tropa de Choque. Centenas de estudantes seguiram então para a Reitoria da UFBA onde se encontraram com as lideranças políticas que tentavam acalmar a situação. O vereador Javier Alfaia (PC doB) comunicou osuposto ato ilegal da PM ao invadir a universidade e desrespeitar uma ordem judicial. O deputado federal Luiz Alberto (PT-BA) as deputadas Lídice da Mata (PSB), Moema Gramacho(PT) e Alice Portugal (PC do B)tentavam se reunir com o reitor UFBA Heonir Rocha para que a universidade se posicionasse oficialmente sobre a invasão.Os oposicionistas também discutiam que ações poderiam adotar para responsabilizar o governo baiano pela repressão. Já o coronel Silva Ramos, assessor de comunicação da PM disse que os manifestantes confundiram "democracia com baderna" e que a polícia não permitirá atos públicos em bairros residenciais como a Graça.

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