Valter Campanato/Agência Brasil
Valter Campanato/Agência Brasil

Representatividade, coerência e direitos humanos importam; leia análise

Um governador de Estado afirmar a própria homossexualidade, como fez Eduardo Leite, tem uma importância ímpar

Paulo Iotti *, O Estado de S.Paulo

02 de julho de 2021 | 16h41

O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite (PSDB), não apenas revelou sua homossexualidade como afirmou ter orgulho em ser gay. A importância de figuras públicas e lideranças em geral afirmarem sua identidade LGBTI+ causa estranhamento a pessoas heterossexuais e cisgêneras não ligadas ao ativismo, que, por vezes, se perguntam por que isso seria necessário. A razão está na correta compreensão do que se quer dizer por “orgulho” LGBTI+ (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais, Intersexos e demais pessoas não heterossexuais e não cisgêneras).

Infelizmente, as sociedades mundo afora ainda promovem valores que querem fazer crer que a pessoa LGBTI+ deveria ter vergonha de assim sê-lo. Quando afirmamos que temos “orgulho” de sermos LGBTI+, o ponto é que não temos que ter nenhuma vergonha em sermos como somos, pois não prejudicamos ninguém por isso, e pelo contrário, temos orgulho de sermos como somos. 

Não se trata de achar nossa orientação sexual (LGB+) ou identidade de gênero (T+) melhor que outras, mas afirmarmos que temos orgulho de sermos as pessoas que somos, especialmente por termos que superar diversos preconceitos sociais contra nosso modo de ser e de viver. Daí não fazer o menor sentido falar-se em “orgulho hétero, cis, branco”, por exemplo, já que são identidades que não são socialmente marginalizadas.

Então, tem uma importância ímpar um governador de Estado afirmar a própria homossexualidade. Quase não vemos em cargos de poder, novelas e na mídia em geral pessoas LGBTI+ assumidas e que não estejam em algum papel subalterno ou pejorativo. O professor Adilson Moreira bem explicou no livro Racismo Recreativo como o humor é usado como forma de opressão, sempre colocando integrantes de grupos vulneráveis em papéis ridículos ou perigosos. Isso passa à sociedade uma imagem de que tais pessoas não seriam tão dignas quanto as integrantes da maioria. 

Veja-se o absurdo escândalo que um beijo entre dois homens em uma história em quadrinhos provocou, fazendo o então prefeito do Rio (Marcelo Crivella) promover uma cruzada homofóbica, deturpando o Estatuto da Criança e do Adolescente para defender que um “beijo gay” iria supostamente ser “prejudicial” a crianças. Tivemos que contar com decisões dos ministros Gilmar Mendes e Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), para cassar essa esdrúxula censura homofóbica.

Por isso, precisamos normalizar as identidades sexuais não heterossexuais (LGB+) e as identidades de gênero não cisgêneras (T+), mostrando que somos pessoas tão “normais” quanto quaisquer outras, no sentido não higienista de normalidade. Porque muitas pessoas ainda têm medo de pessoas LGBTI+ em razão das difamações mundiais que setores fundamentalistas e reacionários fazem contra nós cotidianamente. Somos difamados(as) e, por isso, vistos(as) como supostamente “descontrolados sexuais”, pretensamente querendo “sexualizar crianças”, “destruir a família/sociedade/nação” e outros impropérios injuriosos do gênero, absolutamente mentirosos. 

Tudo que o movimento LGBTI+ quer é que nossas famílias (LGBTI+) tenham seus direitos respeitados e que a população LGBTI+ não sofra violências (físicas ou simbólica), discriminações, ofensas e discursos de ódio, sob pena de ilicitude civil e penal, como ocorre com quem pratica tais nefastas condutas contra outros grupos vulneráveis. Tudo em igualdade de direitos com o restante da população.

Em suma, não queremos “privilégios” como descabidamente somos acusadas e acusados. Queremos o respeito à famosa máxima do professor Boaventura de Souza Santos, que traduz com rara felicidade o notório sentido da igualdade material: "Temos o direito à igualdade quando a desigualdade nos inferioriza, temos o direito à diferença quando a igualdade nos descaracteriza".

Obviamente, Eduardo Leite assumir-se gay não significa que todos os gays irão votar nele. Temos pessoas LGBTI+ de todas as ideologias políticas e partidárias. Aliás, Leite apoiou a candidatura de Bolsonaro no segundo turno de 2018, a despeito de seus notórios discursos homofóbicos, sua notória apologia e defesa da ditadura militar etc e etc. Bolsonaro nunca escondeu suas falas e ideologias absolutamente nefastas, donde o apoio a ele no segundo turno de 2018 já era realmente indefensável. Logo, Eduardo Leite teve postura contraditória com o “orgulho” que agora afirma, como tem sido corretamente apontado por setores progressistas.

Sabemos que as pessoas têm posturas contraditórias, isso faz parte da natureza humana. E como diz Caetano Veloso, cada um sabe a dor e a delícia de ser quem se é, e cada um(a) tem seu tempo de se assumir. Revelar a identidade LGBTI+ de alguém viola seu direito fundamental à intimidade, vale pontuar. Então, não se deve esperar uma união da comunidade gay e ainda mais da LGBTI+ em torno de seu nome para qualquer candidatura.

A eventual possibilidade de algo parecido depende de propostas e ações concretas em favor dos direitos da diversidade sexual e de gênero e dos direitos humanos como um todo. Ainda assim, vale reconhecer a importância da atitude de Eduardo Leite. Mostra a atualidade de um antigo lote do movimento LGBTI+: “We’re here, we’re queer, deal with it”. Ou seja: “Estamos aqui, somos diferentes, conforme-se”, numa tradução com alguma liberdade poética (“queer” era termo pejorativo que foi ressignificado por diversos ativistas de direitos humanos). 

Estamos em todos os lugares e setores sociais. Os espantalhos que inventam a nosso respeito são obviamente falsos e merecemos o mesmo respeito e consideração de todas e todos.

* HOMEM GAY, DOUTOR EM DIREITO CONSTITUCIONAL PELA INSTITUIÇÃO TOLEDO DE ENSINO E DIRETOR-PRESIDENTE DO GRUPO DE ADVOGADOS PELA DIVERSIDADE SEXUAL E DE GÊNERO. ADVOGADO DE DIREITOS HUMANOS (GADVS). É AUTOR DAS AÇÕES DE ABGLT E CIDADANIA QUE GERARAM O RECONHECIMENTO DA HOMOTRANSFOBIA COMO CRIME DE RACISMO PELO STF

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