Mauro Pimentel
Mauro Pimentel

Representantes de 11 religiões convocam ato por Estado laico

Em várias cidades os atos serão realizados em templos evangélicos alinhados à defesa do Estado laico

Ricardo Galhardo e João Ker, O Estado de S.Paulo

20 de janeiro de 2020 | 21h03

SÃO PAULO – Representantes de 11 denominações religiosas realizam nesta terça-feira, 21, em 21 cidades do Brasil atos em defesa do Estado laico e contra a intolerância religiosa.

A Frente Inter-Religiosa Dom Paulo Evaristo Arns por Justiça e Paz, responsável pela organização das manifestações, concrega representantes das religiões de matriz africana, católicos, evangélicos, kardecistas, judeus, muçulmanos, mórmons, budistas, lideranças espirituais indígenas, entre outros.

“Notamos que houve um aumento da incidência de casos de intolerância logo no início do governo Michel Temer. Esta onda arrefeceu e a nossa grande preocupação agora é a manutenção do Estado laico. A presença religiosa no Estado está ficando cada vez maior e vemos pela primeira vez um governo se apoiando em um segmento religioso para manter a esperança de continuar no poder”, disse o pastor evangélico Ariovaldo Ramos, integrante da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, uma das entidades que integram a Frente Dom Paulo Evaristo Arns.

Estão previstos atos em São Paulo, Porto Alegre (RS), Brasília (DF), Rio (RJ), Vitória (ES), Salvador (BA), Aracaju (SE), Maceió (AL), Recife (PE), Natal (RN), Fortaleza (CE), São Luís (MA), Belém (PA) e Boa Vista (RR), além de várias grandes cidades do interior.

Em várias cidades os atos serão realizados em templos evangélicos alinhados à defesa do Estado laico como forma de reforçar o simbolismo das manifestações. Os evangélicos são hoje uma das principais forças de apoio ao governo Jair Bolsonaro.

A data escolhida é, desde 2007, o Dia do Combate à Intolerância Religiosa. Celebrada mundialmente como o Dia da Religião, a data ganhou caráter simbólico no País com a aprovação de uma lei como reconhecimento à história da lyalorixá baiana Mãe Gilda.

Uma das principais lideranças no candomblé baiano, Gilda sofreu um infarto fulminante em 21 de janeiro de 2000, após seu rosto ter estampado a capa da Folha Universal, panfleto da Igreja Universal do Reino de Deus, gerando uma onda de ataques contra ela e seu terreiro. Sua foto veio seguida da manchete “Macumbeiros charlatões ameaçam a bolsa e a vida dos clientes”.

“A intolerância religiosa tem crescido não só com o discurso de hoje, mas até um pouco antes, em 2016. Se observarmos, desde que um grupo evangélico e intolerante começou a ganhar força no Legislativo, o executivo teve que se render à sua agenda moral, religiosa e racista, mesmo nos governos de Lula, Dilma ou Temer”, observa o babalaô Ivanir dos Santos, recém-chegado de Atlanta, nos Estados Unidos, onde foi homenageado com a Proclamação do Condado de DeKalb. 

De acordo com o líder religioso, responsável por organizar desde 2008 a Caminhada em Defesa da Liberdade Religiosa, no Rio de Janeiro, a situação tem se agravado no governo Bolsonaro. “O objetivo dessa frente conservadora é quebrar o estado laico e transformar o Brasil em um estado cristão, o que hoje é defendido pelo próprio presidente da República”, observa.

Ivanir aponta que, desde o início da colonização portuguesa, a intolerância religiosa tem atingido principalmente as religiões de matriz africana, uma realidade presente ainda no Brasil de 2020. “É só percebermos que o episódio recente do presidente em relação ao antissemitismo do ex-secretário de Cultura teve uma postura diferente da que ele tem com a religião africana ou com a homofobia. A própria reação do Estado é diferente, porque ele rapidamente demitiu o cara, mesmo sem querer”, diz.

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