Repórter da BBC no Brasil é vítima de ''seqüestro falso''

O jornalista irlandês Gary Duffy relata sua experiência com crime comum no Brasil.

BBC Brasil, BBC

28 de agosto de 2007 | 10h27

O jornalista irlandês Gary Duffy, correspondente da BBC no Brasil desde abril de 2007, foi vítima recentemente de um "falso seqüestro", experiência que classificou de "um dos aspectos mais assustadores da América Latina". No Brasil, o golpe é conhecido: bandidos ligam para um telefone qualquer dizendo que seqüestraram um parente de quem atendeu a ligação e pedem dinheiro para libertá-lo.No caso do correspondente da BBC, a ligação interrompeu repentinamente uma silenciosa tarde de domingo.Ele conta que na linha estava um jovem aparentemente tenso, chorando desesperadamente."Oh, meu Deus", dizia ele repetidamente, "Eu acabei de ser seqüestrado... eles me levaram." Em seguida, gritava: "Minha mãe, minha mãe".De repente, um homem mais velho explicou que o grupo queria seqüestrar o filho de um empresário, mas erraram de vítima. O homem pediu para falar com a mãe da família."Parecia um bom momento para desligar o telefone", conta Duffy."Estava claro que alguém tentava fazer de nós vítimas de um falso seqüestro, um dos aspectos mais assustadores da América Latina."Para ser vítima do golpe, basta ter um telefone. Os falsos seqüestradores tentam fazer a pessoa para quem eles ligam - freqüentemente um pai ou uma mãe - entrar em pânico para que vá a um banco e pague um resgate antes mesmo de verificar se, de fato, o parente em questão sumiu.Na maioria dos casos, ninguém é realmente seqüestrado.Em 2006, cerca de 10 mil pessoas em cinco cidades brasileiras registraram queixas sobre esse tipo de crime. "Recentemente, passávamos em frente a um banco na Avenida Paulista - no coração de São Paulo - quando ouvimos uma mulher gritando, quase histericamente, num telefone celular: "Eu estou no banco, eu estou no banco".O correspondente conta que as pessoas ao redor da mulher perceberam que ela tentava negociar com falsos seqüestradores e ligaram para a polícia.Em outro caso, uma mulher de 67 anos foi ao banco depois de receber ameaças em uma ligação deste tipo, mas sofreu um ataque do coração e morreu. O correspondente Gary Duffy afirma que teve dificuldades em acreditar que seria vítima do golpe."Eu tenho de dizer que até que uma ligação caia no seu próprio telefone, você acha que não é o tipo de pessoa que acreditaria neste golpe.""Mas, receber de repente uma ligação de um homem chorando em plena tarde de domingo, dizendo que ele foi seqüestrado, pode ser uma experiência alarmante", acrescenta Duffy."Como eu não tenho nenhum parente direto no Brasil, foi fácil colocar de lado qualquer preocupação e identificar, imediatamente, que a ligação era uma farsa.No entanto, agora é mais fácil imaginar como no momento do choque, uma mãe ou pai assustado pode deixar de lado o pensamento lógico", afirma o correspondente da BBC.Para Duffy, não há dúvidas de que este tipo de golpe tem mais impacto devido aos altos índices de criminalidade na sociedade brasileira. Os números fazem a ameaça parecer real.Estudos realizados pela Secretaria de Segurança Pública de São Paulo mostram que 20% das vítimas acreditaram na história dos bandidos, fazendo a ligação e fornecendo o resgate pedido."Tudo isso contribui para que você fique mais paranóico em relação às ligações telefônicas que recebe no Brasil. É um triste reflexo dos nossos tempos, em que meios tão modernos normalmente usados para manter a família unida, podem ser utilizados para espalhar medo." BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

Tudo o que sabemos sobre:
garyseqüestroviolência

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.